Há uma tensão existente na vida de qualquer liderança de uma igreja sã evangelicamente falando. Ela se dá entre não ser amigo de contendas e lutar pela verdade do Evangelho de Jesus Cristo. Será que devemos nos unir com quem nega um fundamento evangélico? Será que a paz e a unidade da igreja deve custar um ponto fundamental do cristianismo? Não quero aqui fortalecer confusões em torno de percepções não-centrais do evangelho e fomentar brigas por questões não essenciais, ainda que relevantes dentro do debate evangélico. Recentemente num congresso, um amigo pregou um sermão sobre a unidade da igreja em pontos essenciais e assino em baixo tudo que ele ensinou fundamentado nas Escrituras.
O ponto é que pastores e líderes às vezes omitem suas convicções ou não confrontam uma heresia para manter o status quo, a posição eclesiástica e o ministério.
Charles Haddon Spurgeon foi chamado de o príncipe dos pregadores na história da Igreja e é o mais conhecido batista edificando uma igreja na Inglaterra com 5.000 membros na época. É lembrado como um evangelista fervoroso e de convicções calvinistas.Mas um ponto não muito mencionado foi a sua luta na controvérsia do “declínio” (Down Grade) em que militou contra o método histórico-crítico, defendeu a inerrância bíblica e alarmou sua denominação na época em relação aos perigos do liberalismo teológico e o efeito nocivo dentro da igreja. Ainda que seja considerado herói por muitos hoje, Spurgeon ficou sozinho em sua época. Foi abandonado por colegas que tinham a mesma posição mas queriam manter a paz e a unidade da igreja em detrimento da verdade.
Iain Murray escreveu: “E logo no começo da controvérsia do [declínio], Spurgeon declarou que os evangélicos tinham que enfrentar uma política que nos forçaria a subordinar a manutenção da verdade à prosperidade e unidade denominacional” (MURRAY, O Spurgeon Esquecido, PES, p. 187-188). Ali vários colegas de Spurgeon adotaram uma política de acomodação em detrimento da verdade evangélica da inerrância das Escrituras.
Com isso, mais uma vez saliento a necessidade de pastores e líderes pedirem graças ao Senhor para se firmarem numa convicção e estarem prontos a serem retaliados pela causa de Cristo. Não deveríamos nos conformar com o liberalismo teológico regendo a formação ministerial dos futuros obreiros. Que Deus nos de graça e firmeza para protestarmos em verdade e com amor.
P.S: Um amigo editor entendeu ser melhor traduzir Down Grade por declínio ao invés de Baixo Grau. Ele escreveu: "Baixo grau é uma tradução literal e, em rigor, não significa muita coisa para nós. A tradução mais apropriada seria “declínio”, pois era exatamente isso que ocorria com a cristandade evangélica dos tempos de Spurgeon: declínio. " Agradeço a ele pela correção.


5 comentários:
Olá Juan de Paula, graça e paz!
Concordo totalmente que devemos defender os fundamentos do Evangelho e não podemos nos unir àqueles que os negam. Mas eu fiquei com uma dúvida. No artigo você diz que não devemos nos conformar com a ordenação feminina e eu reconheço que não há base bíblica para ela. Mas podemos dizer que a ordenação feminina é contrária a alguma doutrina fundamental? Na CBB nós nos unimos com arminianos, que segundo eu entendo negam verdades muito mais importantes do que aquelas relacionadas com a ordenação.
Abraços,
André Aloísio
O principal dos pecadores (I Tm.1.15)
http://teologia-vida.blogspot.com
Grande André,
obrigado pela dúvida. Acabei por tirar a frase referente a ordenação feminina pela desconexão com as perguntas levantadas no início.
O ponto é que pastores acabam ficnado em cima do muro para manter a paz e a unidade mesmo que questões fundamentais estejam em jogo.
Não concordo com a ordenação feminina e nem com o arminianismo. A primeira não compactuo de jeito nenhum , o segundo, mesmo não concordando , tolero. Mas sei que há irmãos em Cristo que crêem nos dois.
Liberalismo discordo mais profundamente ainda pois nega o evangelho em sua essência. Essa é a luta.
Em nossa denominação liberais permanecem em igrejas e catedras sem serem retaliados por questões políticas e outras. Isso é ruím.
Obrigado pela visita e contribuição ao post. Que o Senhor o abençoe.
Abraços,
Juan
Juan,
há um ponto levantado por você nesse post que merece mais consideração: a liberdade econômica como base da liberdade na pregação.
Quem depende economicamente da igreja à qual prega ou da denominação em que está inserido, pensará dez vezes antes de arriscar o leite das crianças por causa de fidelidade doutrinária às Escrituras. No mínimo, será gentil quando devia usar o chicote.
Acho que a expressão de Amós, "não sou profeta e nem filho de profeta", tinha algo a ver com isso. Ele se sentia livre para falar a Palavra de Deus, porque não estava preso às conveniências que os profetas profissionais precisavam considerar.
Paulo faz questão de dizer, em algum momento, que, como ninguém podia gabar-se de pagar suas contas, ele não tinha que ficar com papas na língua em sua pregação.
Mais um motivo, creio, para repensarmos o modelo de "ministério pastoral ou da Palavra" vigente: como carreira profissional, em geral, única ("de tempo integral", como dizemos) e sem alternativas de sustentação econômica.
O sujeito pode ser muito valente, até o momento em que a mulher dele diz: se você continuar nesse caminho, como vamos pagar o leite das crianças? Acaba ali o "herói da fé" (não necessariamente, mas em geral, quero dizer).
O que você acha?
Alberto Costa
Pr Juan,
Muito bom texto. Realmente a "frouxidão" das lideranças, sobretudo das igrejas (as quais os líderes pertencem) tem levado muitas a pregar um evangelho completamente distinto do Evangelho de Cristo.
Pergunto: o liberalismo quando adentra uma igreja não ocorre porque os alicerces doutrinários já foram corroídos por doutrinas antibíblicas, as quais infiltraram-se sem que a igreja tivesse o zelo de repeli-las, por considerá-las sem importância ou não-fundamentais? E não é o caso de se fazer valer a discíplina bíblica? Por amor a Deus, à igreja e ao irmão a ser disciplinado para que ele volte ao Evangelho (ainda que seja um líder)?
Cristo o abençoe.
Abraços.
Alberto,
acho que excedi um pouco nesta postagem. Misturei alguns pontos.
O ponto mesmo é que existem pastores que preferem manter o status quo e a tranquilidade ministerial do que se envolver em controvérsias sobre pontos fundamentais envolvendo o liberalismo. Não deveria ter escrito sobre envolvimento do sustento familiar e outras coisas que deletei da postagem.
Quanto a sua pergunta: Entendo que o pregador é chamado por Deus e Ele é quem sustenta. Ele deve se manter fiel nas convicções centrais (inerrância, divindade de Cristo e outros) mesmo que lhe custe o "emprego". Sei que é uma questão de fé e descanso na providência do Senhor.
Não acho prudente, por outro lado, o obreiro correr riscos por causa de mudança de relógio na parede (por ex) nem por coisas que ele pode muito bem tolerar e que não influenciará a pregação do evangelho. Aqui cabe um artigo no site da fiel do ministério 9 marcas sobre pelo que de fato lutar e dar a nossa vida.
Resumindo: lutar pelo que é central e tolerar o não essencial.
Jorge,
o ponto é o que é fundamental e não-fundamental?
Por um lado, uma abertura extrema abre a porta para a enxurrada de ídolos e heresias dentro da igreja (assim como a aliança de Israel com certos povos estrangeiros no AT).
Por outro lado, corre-se o risco do farisaismo agir de forma intolerante com pontos não centrais do evangelho (relevantes, mas não centrais para definir quem é salvo ou não). Jesus Cristo condenava o farisaismo pelo excesso de zelo sem se importar com o coração da pessoa. Os libertinos dão vazão a carne sem ter zelo com as coisas de Deus. O Evangelho nos chama ao centro, ao equilibrio, a glória de Deus.
A disciplina eclesiástica é bíblica. É uma expressão de amor pelo pecador e zelo pela pureza da igreja. Se exercida biblicamente, mostrará os dois lados da moeda.
Acho que é por aí....
Deus o abençoe tbm,
abraços,
Juan
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