Terça-feira, Outubro 28, 2008

127 - Diálogo entre dispensacionalistas e reformados: um apelo a tolerância e cooperação (II)

“…. na presença de um grande inimigo comum, eu tenho muito pouco tempo para atacar meus irmãos que se levantam comigo na defesa da Palavra de Deus”. John Gresham Machen (1881-1937)


Na primeira postagem desta série foi levantado o problema e a construção de pontes no diálogo entre dispensacionalistas e reformados e onde as duas vertentes da interpretação bíblica podem e devem caminhar juntas de mãos dadas na “teologia brasileira“ (contexto teológico brasileiro).

Nesta 2a postagem serão levantados os aspectos históricos relevantes para a continuidade do diálogo. Com isso, a postagem não pretende ter a função de artigo acadêmico com a exatidão de datas e precisão do pensamento predominante em determinado período. Os livros de teologia histórica existem para isso. Aqui, limito-me a abordar historicamente o crusamento da teologia reformada com o dispensacionalismo.

O dispensacionalismo surgiu no início do século XX com J.N Darby e teve sua plataforma de divulgação com C.S Scofield (A Bíblia de Scofield). O centro de exposição é o conhecido Seminário de Dallas fundado sob influência do teólogo sistemático Lewis Chafer. Pensadores influentes desta vertente são os conhecidos C. Ryrie (A Bíblia Anotada) e D. Pentecost, sem esquecer as conferências Moody ( e o próprio evangelista cujo nome a conferência carrega). Aqui no Brasil, o Seminário Bíblico Palavra da Vida e a Igreja Batista Regular são conhecidas instituições dispensacionalistas.

A teologia reformada remonta a reforma protestante do século XVI com João Calvino e é conhecida pelo caráter confessional de suas denominações. Existem diversos seminários nos E.U.A de persuasão reformada e aqui no Brasil há a influência do Centro de Pós Graduação Andrew Jumper e a denominação da IPB além da conferência Fiel para pastores e líderes.

Claro que há outros centros aqui e fora. O objetivo foi apenas colocar os principais.

Esse dois movimentos se cruzam na controvérsia fundamentalismo-modernismo, sendo o 1o movimento defensor da inerrância das Escrituras e da divindade de Cristo e o 2o negando os eventos narrados nas Escrituras defindo-os como mitológicos. (Definições a grosso modo - para uma analíse mais acurada desta controvérsia ler os artigos de Augustus Nicodemus - Fundamentalismo e Liberalismo - escritos originalmente como palestras disponíveis em monergismo.com - no mesmo site na secção sermões em audio - tem versão da palestra em MP3).

O fundamentalismo originalmente foi um movimento que se levantou em defesa da Palavra de Deus acrescentando décadas depois elementos da cultura americana como áxiomas centrais na fé cristã adotando uma postura de desconfiança total para com a cultura ao redor. Hoje o nome fundamentalismo (tirando sua conotação como termo pejorativo) está bastante associado com o dispensacionalismo (apenas informação sem juizo de valor) embora há pensadores dispensacionais que refletiram uma interação transformadora da fé com a cultura (vide Francis Schaeffer). Há também diferenças entre o dispensacionalismo e a teologia reformada no que tange a liberdade cristã.

O campeão da ortodoxia neste período foi J. Gresham Machen (teólogo presbiteriano, autor do conhecido livro Cristianismo e Liberalismo , 1923 editado para o português pela editora Os Puritanos) que militou contra o liberalismo (modernismo) em sua denominação e se tornou referência na resistência. Quando indagaram sobre a sua relação com os “fundamentalistas” (dispensacionalistas) , ele respondeu: “…. na presença de um grande inimigo comum (liberalismo), eu tenho muito pouco tempo para atacar meus irmãos que se levantam comigo na defesa da Palavra de Deus”.

O objetivo desta postagem foi mostrar breviamente como os reformados e dispensacionalistas se uniram (ainda que eu não tenha informações sobre até que nível se deu essa união) para enfrentar o liberalismo e aqui no Brasil onde o mesmo chegou com peso na década de 60 com o missionário presbiteriano Richard Shaull e pelo menos na denominação que pertenço ocupa grande espaço nas acadêmias e seminários com a divulgação e defesa do método histórico-crítico, há espaço para as duas vertentes se unirem e defenderem a autoridade das Escrituras frente a um contexto acadêmico que flerta com o liberalismo.

Bibliografia:

SANTOS, Valdeci da Silva. John Gresham Machen contra o liberalismo: Em Defesa da Fé Cristã. Fides Reformata IX, no 1. São Paulo: Editora Mackenzie (2004): p.152.

Terça-feira, Outubro 14, 2008

126 - Uma carta comentando a relação entre a doutrina e o deleite



Nome e situação fictícia porém baseada em evento real


Prezada Mariana,


graças a Deus que está tudo bem com você e seus pais. Que o Senhor continue conservando a fé e a vida de vocês. Fico grato pela sua confiança em minha pessoa para esclarecer suas dúvidas. Embora não seja o pastor de sua igreja, creio que conversas com seu pai, que é o seu pastor, também lhe fará bem e a ele também, pois o ajudará e o fará pesquisar mais.


Quanto a questão levantada por você - foi-me escrito: “Juan, por que preciso estudar teologia e doutrina. Meu negócio é ter intimidade com o Espírito Santo? ”. E sobre a sua declaração é que irei me apoiar para diálogar com você fazendo todo o possível para servi-la na compreensão sobre as coisas do Reino de Deus.


Antes de entrar no ponto, digo que compreendo a sua situação e a honestidade de sua pergunta. Você, nascida na igreja, é filha de um pastor de vertente carismática (sem juizo de valor Mari) de uma denominação pentecostal. Com isso, você criou raízes que mantém até hoje e eu acho que isso tem o seu valor, só que você deve ir além daquilo que você aprendeu, crescendo cada vez mais. Com isso reconheço seu esforço e sei que você é uma moça piedosa e que busca a glória de Deus.


Antes de entrar no ponto ainda, lhe direi aonde estou. Você sabe que sou de uma denominação histórica que valoriza a doutrina e que fiz uma faculdade de teologia durante 4 anos. Ali me identifiquei com a Teologia Reformada (embora a própria faculdade detestasse isso) que preza pela soberania e majestade de Deus e pela Escrítura como revelação suficiente. Se eu parasse por ai, iríamos divergir bastante. Mas eu não parei. Entre os reformados , há a vertente cessacionista que crê que os dons extraordinários cessaram. Não entrarei no mérito em si, pois há livros e artigos acadêmicos e não esgotaremos o assunto em uma carta, mas creio que são irmãos sinceros e zelosos na busca do entendimento da revelação bíblica e na defesa da sua suficiência. Dentre estes estão vários heróis meus, tanto do passado como no presente. Porém há uma outra posição, o qual usarei como plataforma para diálogar com você, a saber, o contemporanismo - ou seja - creio que determinadas manifestações do Espírito Santo são para os nossos tempos também e que em nosso culto o Espírito deve ter liberdade e também o nosso emocional e nossa subjetividade tem o seu lugar naquilo que os puritanos chamavam de religião experimental (óbvio - não negligênciando o uso da mente e da razão). Esse casamento da doutrina com o deleite ficou claro quando li a Teologia Sistemática do Wayne Grudem e concordo com ele quando expõe sua posição em relação ao E.S embora eu não tenha fechado como ele a questão da profecia. Então, embora seja eu um leitor de livros de teologia e doutrina, creio como você que devemos muito buscar intimidade e experiência com Deus. Se separamos os dois, deixaremos de dar glória a Deus.


Então faço coro com você que devemos buscar a intimidade e a experiência com Deus através da nossa união com Cristo e da pessoa do Espírito Santo.


Agora, eu caminho de mãos dadas com você para o esclarecimento de sua dúvida: a minha frase acima, que sei que você concorda, aborda doutrinas teológicas de suma importância como trindade, união com Cristo, redenção, regeneração, santificação, enfim….se dissermos que queremos ter intimidade com Deus, amamos Jesus e queremos ter experiências com o Espírito, precisamos de norteamento pois o Deus triúno se revelou na Bíblia nos deixando compreensão , não só da experiência mas também da realidade em que nos encontramos, além do próprio Deus e da nossa condição humana focando a salvação em Cristo e a reconciliação com Deus. Está vendo? Como essa busca faz com que precisemos de teologia.


Claro que é maravilhoso ter experiências com Deus e desfrutar de um relacionamento de intimidade com Ele, mas não podemos deixar de lado o elemento razão de nosso ser senão nos tornamos presas de ventos de doutrina e experiência por experiência, o inimigo também pode nos proporcionar fazendo caricatura das reais e legítimas. É necessário o cristão estudar a Palavra e buscar entendimento dela com profundidade. Não podemos nos chegar a Ele de qualquer modo.


Certa ocasião um amigo na primeira igreja onde pastoreei me disse para tomar cuidado com muita teologia e pouca espiritualidade. Eu entendi o que ele quis dizer mas eu respondi dizendo que não podemos exercer uma espiritualidade sem teologia. Seria suicidio intelectual fazer isso. Alguns estudiosos da fase medieval do cristianismo que tem como objeto de estudo os “pais do deserto” dissertam sobre a contribuição daquele período para a espiritualidade mas não podemos cair num misticismo desenfreado sem conhecer a Deus e quem realmente Ele é no que permite ser conhecido através da Bíblia. Não devemos separar a doutrina e o deleite, a espiritualidade do conhecimento bíblico e a luz do fogo.


Bom, espero que meu argumento tenha convencido você a mergulhar mais em estudos bíblicos. Mas quero ainda escrever alguns cuidados que você deve tomar:


1 - O conhecimento bíblico e teológico é para glória de Deus e não um fim em si mesmo. Estudar sobre Deus e não conhece-lo experimentalmente é beber veneno para a alma.


2 - Experimentar Deus e não estuda-lo usando a mente e pesquisando a revelação bíblica é caminhar para um misticismo sem freios e isso é muito comum em nosso Brasil, pois somos místicos demais e vemos o resultado disso com o analfabetismo bíblico em nossas igrejas.


3 - Concilie sabiamente seus estudos bíblicos e teológicos com uma vida de oração e uma postura santa (não caia no erro de banalizar as coisas de Deus só porque está crescendo nos estudos). Ame a Deus de todo o seu coração, com toda a sua força e entendimento.


4 - Para começar seus estudos compre uma boa Bíblia de estudo. A Bíblia de Genebra e a NVI de estudos são minhas preferidas. A Bíblia Shedd também é excelente.


5 - Para seus estudos teológicos leia o breve catecismo de Westminster que segue em anexo com e-mail. Essas perguntas e respostas são excelentes estudos teológicos. Tem sido muito comum pentecostais e carismáticos chegarem a conclusões iguais e compreenderem as doutrinas ensinadas nesses catecismos.


6 - Os autores, J.I Packer (O Conhecimento de Deus é excelente), Wayne Grudem, John Piper, C.J Mahaney, Tim Keller, Mark Driscoll, Joshua Harris a ajudará a conciliar boa teologia com deleite e experiência com Deus. Dos antigos sugiro Jonathan Edwards e Martin Lloyd-Jones. A tradição puritana tem excelentes mestres na experiência cristã.


Por hora é só, entendo que podemos conciliar os dois.


Espero te-la ajudado, mantenha contato. Que Deus continue a te abençoar.


Seu amigo,

pastor Juan.

Quinta-feira, Outubro 02, 2008

125 - Diálogo entre dispensacionalistas e reformados: um apelo a tolerância e cooperação (I)


“….os teólogos da aliança e os dispensacionalistas colocam-se lado a lado na afirmação dos princípios essenciais da fé cristã. Com muita frequência, estes dois grupos, dentro do Cristianismo, apresentam-se sozinhos em oposição à invasão do modernismo (liberalismo), do neo-evangelicalismo (Neo-ortodoxia) e do emocionalismo (Neo-pentecostalismo)…(as duas correntes) devem manter na mais alta consideração a produtividade erudita e evangélica uns dos outros. Pode-se esperar que a continuação desse intercampus se baseie no amor e no respeito”



O. Palmer Robertson (teólogo aliancista), O Cristo dos Pactos, p.181-82



“Nas coisas essênciais, unidade ; nas coisas não-essenciais, liberdade e em todas as coisas, caridade”



Richard Baxter - ministro puritano



Recentemente estava teclando com um jovem academicamente talentoso cujo blog linkei aqui. Este escreveu uma postagem protestando contra uma sentença de um reformado alegando ser o dispensacionalismo “teologia do diabo”. Outrora li de um outro reformado que o dispensacionalismo era uma seita. Óbvio que discordo. Se o(a) leitor(a) não está familiarizado com as linhas teológicas e os termos, sugiro uma visita ao monergismo e leia artigos que esclareçam as diferenças da interpretação bíblica entre as duas vertentes. Não é objetivo da postagem dissertar as duas visões. Ano passado postei um texto aplicativo em relação a unidade e diversidade e o escrevi exatamente porque como um reformado, pastoreei uma comunidade de posição dispensacionalista influenciada por um seminário local (por sinal, excelente!) e estou inserido numa cidade com apenas 3% de evangélicos, a grande maioria de persuasão pentecostal. A maioria das postagens são inspiradas por uma experiência interpretadas a luz de minhas crenças.


Óbvio que há discordância entre estas duas correntes e que na produtividade acadêmica há espaço para críticas e refutação entre ambas as posições. E há excelentes artigos de reformados discordando da posição dispensacional sem faltar com o respeito e havendo honestidade no debate.


Vale a pena lembrar que o evangelista Francis Schaeffer e o pastor John MacArthur Jr são calvinistas nos cinco pontos mas dispensacionais na hermenêutica e na escatologia.


Pessoalmente acredito que expositores das duas correntes possam caminhar juntos - mesmo que alguns teólogos coloquem limites e fronteiras para tal (sem entrar no mérito) e essa tolerância e cooperação é salutar para o evangelicalismo brasileiro. Na primeira postagem, está escrito princípios teológicos que podem ser afirmados pelas duas correntes, na segunda parte os aspectos históricos e culturais envolvidos, e na terceira e ultima, como estas duas exercem a mesma filosofia de ministério.

As duas correntes crêem:


1 - Na autoridade das Escrituras, reveladas proposicionalmente e progressivamente e na teoria da inspiração verbal e plenária. Ambos crêem na suficiência, inerrância e infalibilidade das Escrituras como regra de fé (crença) e prática de vida (conduta).


2 - Na criação, soberania de Deus e sua providência sobre todo universo.


3 - Na trindade ou tri-unidade de Deus (três pessoas - um só Deus - mesma essência e substância divina).


4 - Na união das duas naturezas de Cristo - 100% Deus e 100% homem.


5 - Na queda de Adão e a consequência para toda a raça humana, sendo esta escrava do pecado.


6 - Na salvação única e exclusivamente pela graça mediante a fé em Cristo como sacrifício remidor dos nossos pecados. A aceitação da parte de Deus mediante a justiça de Cristo (justificação pela fé).


7 - Na Igreja como corpo de Cristo dinamizada pela pessoa do Espírito Santo.


8 - Na volta pessoal, física e visível do Nosso Senhor Jesus Cristo e na ressurreição dos mortos para o julgamento sendo alguns para perdição e outros para a salvação.


9 - Hermenêutica histórico-gramatical como ferramenta de correta interpretação das Escrituras considerando-a um livro de dois autores, a saber, divino e humano.


Sendo assim não deve-se considerar o dispensacionalismo como seita e nem como “teologia do diabo” e nem do outro lado ver o aliancismo como heresia ou algo desse naipe. É reconhecido o esforço de teólogos no Brasil de ambas as correntes e excelentes obreiros realizando ótimos pastorados para a edificação da igreja de Cristo no Brasil e para glória de Deus. Na 2a parte será abordado alguns aspectos histórico-culturais com relação as duas correntes e a 3a parte mostrará que ambas podem compartilhar da mesma filosofia de ministério.