Quinta-feira, Junho 26, 2008

119: Devocional - “Não podemos dar migalhas a carne”

“16 Por isso digo: Vivam pelo Espírito, e de modo nenhum satisfarão os desejos da carne. 17 Pois a carne deseja o que é contrário ao Espírito; e o Espírito, o que é contrário à carne. Eles estão em conflito um com o outro, de modo que vocês não fazem o que desejam.” - Gálatas 5:16-17.

Estava conversando com um amigo de bons papos teológicos e espirituais, o Filipe Cantarino, onde o diálogo girava em torno da nossa natureza pecaminosa e seus efeitos. Certa altura de nossa conversa, ele colocou a frase que escolhi como título da devocional: “Não podemos dar migalhas a carne”. Foi aquela sentença que fixa na nossa mente se tornando uma máxima, remetendo a nossa mente na Palavra de Deus, na dependência do Espírito, desfrutando do seu efeito transformador em nossa natureza carnal e pecaminosa. Essa migalha (como que costumamos a chamar o farelo do pão) é qualquer vazão dada aos desejos e cobiças que procedem de nosso coração, seja algo que é claramente impuro ou algo que não é errado em si, mas torna-se errado caso ocupe o senhorio de nossas vidas, se tornando assim um ídolo de nosso coração, embora o texto acima trate especificamente das obras da carne que procedem exatamente de tais desejos mencionados acima. Nossa carne deseja o que é contrário ao Espírito, de fato! O Espírito nos conduz a uma vida de santidade, separação e consagração em nosso relacionamento com Deus, causando em nós transformação que gera pureza e retidão. A carne leva o individual a pecar e assim ferir a glória de Deus e Sua santidade. Na nossa prática de vida cristã e integra podemos não dar migalhas a carne e coloco aqui algumas pistas para tal:

1 - Ocupe a sua mente com pensamentos verdadeiros e puros (Fil 4:8). Para isso mantenha uma leitura bíblica diária, se possível de dia e de noite (Sl 1:2). Memorize textos das Escrituras que confrontam diretamente ou que contenham princípios que cutuquem o desejo ou o pecado em evidência. Lembre que o Espírito é o Espírito da verdade (João 16-17) que nos conduz iluminando nosso conhecimento de Deus e nos santificando na verdade (17:17). Sua mente é renovada por Deus (Rm 12:2) e você tem a mente de Cristo (1 Co 2:16).

2 - Crie habitos santos (Lv 11:44). Assim como a obra da carne se torna um habito de nossa mente e coração, assim pensamentos nobres e desejos puros se tornam habitos santos em nós, nos aperfeiçoando em Cristo.

3 - Estude na Bíblia e em algum bom manual de teologia sistemática a doutrina da nossa união mística com Cristo (bem desenvolvida por João Calvino). No site monergismo.com há bons textos nesse sentido.

4 - Desenvolva uma vida regular de oração para cultivar seu relacionamento com Deus. Confesse seus desejos e pensamentos impuros (Salmo 51) e desfrute do perdão de Deus (Salmo 32).

5 - Leia o livro de John Owen: A mortificação do pecado! Excelente!

6 - Não relaxe em sua vigilância e não abaixe a guarda: sem santidade , sem céu! Não que sejamos salvos por obras, e não somos, mas a fé produz frutos. Caso caia, levante! Fortaleça o seu coração!

Embora o titulo da postagem tenha aspecto negativo, os pontos desenvolvidos foram abordados em perspectiva positiva proporcionando ao leitor e ao editor, amor e paixão por santidade pois sem ela nínguem verá a Deus (Hb 12:4). A carne é orgulhosa, egoista e rebelde e devemos esvazia-la e mortifica-la a cada dia, andando no Espírito para a glória de Deus.

Pai Santo, louvamos o Senhor pela sua majestade e beleza
Perdoa-nos quando deixamos fluir os desejos e pensamentos impuros oriundos de nossa carne.
Faz-nos, a mim e aos leitores, andar no Espírito, viver no Espírito, ter mais intimidade contigo para honra e glória ao Seu nome. Não queremos alimentar esse leão que há dentro de nós nem dar migalhas a nossa carne.
Queremos nos parecer mais com Cristo,
Em nome Dele,
Amém.

Quarta-feira, Junho 18, 2008

118: NO PAIN, NO GAIN – Máxima da musculação e a experiência do sofrimento na vida cristã

2 Meus irmãos, considerem motivo de grande alegria o fato de passarem por diversas provações, 3 pois vocês sabem que a prova da sua fé produz perseverança. 4 E a perseverança deve ter ação completa, a fim de que vocês sejam maduros e íntegros, sem lhes faltar coisa alguma. Tiago 1:2-4 NVI

12 Amados, não se surpreendam com o fogo que surge entre vocês para os provar, como se algo estranho lhes estivesse acontecendo. 13 Mas alegrem-se à medida que participam dos sofrimentos de Cristo, para que também, quando a sua glória for revelada, vocês exultem com grande alegria. 1 Pedro 4:12-13 NVI



Uma máxima dos praticantes de musculação diz que não há ganho sem dor (no pain, no gain). A medida em que o atleta ou cliente da acadêmia vai ganhando resistência muscular , sua série aumenta. De acordo com o objetivo pessoal, quanto mais peso o indivíduo levanta, mais dor ele sente. Quanto mais dor ele sente, mais massa muscular irá se desenvolver em seu corpo. Para manter um corpo atlético , ele deve malhar, praticar e assim irá sentir dor cada vez que o peso aumentar significando que mais massa muscular está sendo desenvolvida.
Essa mesma lógica pode ser usada na peregrinação espiritual do crente. Não está sendo afirmado que a dor é a única forma de fazer o cristão crescer em intimidade com Deus. Mas é uma das melhores formas, se não a melhor. Os textos citados acima afirmam que o sofrimento produz fé e perseverança tornando o crente mais maduro e íntegro. O sofrimento também faz com que o cristão se identifique com Cristo (participando de seu sofrimento na cruz para o perdão dos nossos pecados), para glória de Deus e aprendizado no exercício de sua alegria e contentamento em Deus. A dor e o sofrimento podem fazer com que o cristão cresça em Cristo e amadureça seu caráter desenvolvendo melhor sua intimidade com Deus. Certa ocasião, Dr. Russell Shedd afirmou que se queremos mais de Deus, devemos pedir um câncer a Ele. Pr. John Piper desenvolveu essa idéia em seu texto Não disperdice seu câncer , disponível no site monergismo.com. Eis algumas lições que podem ser adquiridas na passagem pelo sofrimento:
1 – Assim como a musculação faz com que o atleta ganhe mais massa corporal, o sofrimento treina o crente em maturidade, o preparando para situações ainda piores na vida e o preparando para o porvir. O fato de John Bunyan passar doze anos preso, ter sua filha mais velha e cega passando necessidade o fez sentir melhor o gostinho do céu e passar isso para sua congregação em Bradford. Mais dor, mais ganho muscular – mais sofrimento, mais maturidade cristã. Não é uma defesa de alguma espécie de “masoquismo” cristão mas sim uma forma correta, bíblica e cristã de se passar pelo sofrimento, assim como a dor muscular é sinal de crescimento e endurecimento do músculo, o sofrimento faz o crente crescer.
2 – O atleta tem um alvo e um objetivo com o seu treinamento. Para atingir este objetivo ele precisa treinar duro e consequentemente sente dor. Ele tem um espelho, alguém que está mais adiantado nesse tipo de treinamento. No sofrimento, o crente aperfeiçoa seu caráter em Cristo , benefício de sua união mística com Ele. Na dor, o crente se assemelha ao seu Senhor entregando a Sua vida na cruz do calvário em prol do pecador imerso em sua miséria, participando e se identificando com o sofrimento do Senhor Jesus. Martin Lutero atribui seu crescimento ao sofrimento vivido em plena perseguição na Alemanha do século XVI.
3 – Dependendo da ocasião, o atleta cultua seu próprio corpo e tem como principal objetivo de sua vida atingir seu objetivo no treinamento muscular (não que fazer musculação seja pecado em si, mas pode se tornar um ídolo dependendo da motivação do coração de quem está treinando) não se importando com a dor experimentada no período da série. O crente enxerga a dor como um momento em que Deus está sendo glorificado naquele momento. O sofrimento ajuda o crente a buscar mais a glória de Deus e se deleitar e satisfazer a sede da alma Nele.
4 – Quando o atleta atingi seu objetivo, há nele uma sensação de realização e dever cumprido. Como todo ser humano é insaciável , ele vai aumentar sua série em prol de superar seus limites ou vai atrás de outro objetivo. O crente se alegra em Deus e se deleita Nele, independente de circunstâncias. Ele aprende a estar contente em toda e qualquer situação, assim como o Apóstolo Paulo, que escreveu sobre alegria aos cristãos em Filipos, estando ele preso em Roma com uma série de privações.
Se você está passando por alguma tribulação , dor ou sofrimento – aproveite a oportunidade para colocar estes princípios em prática. Que o Senhor abençoe a sua vida e lhe faça crescer em meio a dor.

Pai de misericória, obrigado pelo teu cuidado conosco. Fortaleça teu povo na fé em meio a dores e tribulações. Que o Senhor mantenha os leitores firmes na fé, os ajudando a perseverarem assim como os heróis da fé citados em Hebreus 11. Que o Senhor não os desampare, fazendo-os crescerem em Cristo, aperfeiçoando e purificando caráter, dando alegria e contentamento, algo que só pode ser adquirido no deleite da alma para contigo, oh Senhor. Seja glorificado em meio a toda dor que passamos e vivemos. Em nome de Cristo Jesus, seu filho e nosso Senhor. Amém.

Quarta-feira, Junho 04, 2008

117: Resenha - ADAMS, Jay. Auto-Estima: Uma Perspectiva Bíblica. - São Paulo: ABCB, 2007.

ADAMS, Jay. Auto-Estima: Uma perspectiva Bíblica. - São Paulo: ABCB, 2007. 156p.

Jay E. Adams pastoreou igrejas e lecionou no Westminster Theological Seminary sendo diretor do programa de Doutorado em Ministério. Foi o fundador do CCEF – Christian Couseling and Education Foudation. Escreveu mais de 60 livros e é o porta-voz do movimento de aconselhamento bíblico. Entre seus escritos temos em português Conselheiro Capaz, Manual do Conselheiro Cristão e Vida Cristã no lar , ambos pela editora Fiel, além do lançamento resenhado nesta postagem.
Jay Adams defende a suficiência das Escrituras a partir de uma cosmovisão reformada para lidar com os problemas não-orgânicos do ser humano em detrimento das teorias da psicologia que partem de uma cosmovisão pagã e secularizada. Neste livro foi analisado as influências dessas cosmovisões no conceito da auto-estima.
Logo no primeiro capítulo, Adams deixa claro a sua preocupação com o movimento e a sua intenção de analise e refutação bíblica. “Minha preocupação inicial é ajudar você a ter uma visão apurada de como o movimento da auto-estima está se espalhando e qual o seu alcance. Quero que você perceba que não é simplesmente uma moda passageira que logo será substituída por outra. Ele chegou lentamente, mas agora que está aqui assumiu rapidamente proporções maiores do que teria previsto, e ganhou um lugar de destaque no pensamento de muitos líderes cristãos, de maneira que podemos afirmar que seus ensinos terão impacto na igreja, tanto nesta geração como também nas próximas” (Adams, P.13). No segundo capítulo vê-se as reinvidicações por mudança.
O terceiro capítulo surge a partir das perguntas “A doutrina desta nova reforma provém da Bíblia? Se não, qual sua origem? Ela está de acordo com o pensamento bíblico?” (P.33) e discute que “...um crente ouve que toda a verdade é verdade de Deus?” levantando a questão epistemológica: o que é a verdade? A resposta: “..a Bíblia; o inerrante e infalível padrão de Deus para a fé e para a vida” (P.35).
No quarto capítulo o movimento é testado biblicamente: “Não podemos deixar de notar que enquanto o escritor enfatiza o eu, em Mateus 6 Jesus nos convida a olharmos além de nós mesmos, de nossas necessidades, de nossas ansiedades e de nossas preocupações. Ao contrário, Ele nos direciona para o Seu reino e Sua justiça” (P. 53).
Em seguida, estuda o conceito de necessidade e desejo biblicamente e no capítulo 6 entra na questão do amor-próprio. “Não há necessidade de se preocupar em como amar a si mesmo, porque enquanto uma pessoa procura amar a Deus e ao próximo de uma maneira bíblica, toda preocupação consigo mesma aparecerá como um subproduto. É por isso que a Bíblia nunca ordena que amemos a nós mesmos.” (p.81). Nos capítulos 7 e 8 o autor estuda textos que refutam o conceito de valor infinito e da suposta dignidade de salvação passando a estudar textos frequentemente negligenciados.
No décimo capítulo Adams escreve que há duas maneiras de abordar o amor-próprio: a pagã e a cristã (p.111) “ Quando você busca ganhar a si mesmo, só tem a perder. Quando você está disposto a perder a si mesmo por Cristo, então você ganha” (p.122). E termina trabalhando o conceito de auto-imagem acurada em Cristo e o ultimo capítulo segue com algumas aplicações confrontando o leitor a escolher o caminho após discernir a questão em jogo.
A edição do livro foi uma iniciativa de dois ministérios de aconselhamento, a saber, NUTRA – Núcleo de Treinamento e Recursos em Aconselhamento e ABCB – Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos. A capa com a cruz e a Bíblia embaixo deixa claro o propósito evangélico da negação de si mesmo e submissão a Palavra.
Jay Adams segue firmemente a teologia reformada e a confissão de fé de sua denominação (CFW). Sua abordagem é aproveitada entre irmãos não-reformados (sem juízo de valor) como por ex. de perspectiva dispensacional. No meio reformado tem-se excelentes pregadores e teólogos, mas é necessário e urgente especialistas em aconselhamento bíblico, uma área que carece de reforma e do princípio Sola Scriptura com urgência, pois os pastores não devem entregar os problemas humanos (depressão, ansiedade, medo, irá, angústia, etc....) não-orgânicos aos “profissionais da área”. Este livro preenche essa lacuna – parabéns ao Nutra e a ABCB pela iniciativa, Deus os abençoe.