Sexta-feira, Fevereiro 29, 2008

109: Os cristãos de lá e os de cá

Recebi esta reflexão por e-mail de um amigo e resolvi postar aqui com a devida autorização do autor desta, cujo contato se encontra no final da postagem. Interessante e provocadora reflexão. Que Deus lhe dê uma abençoada e edificante leitura.

Acompanho com interesse e pesar a luta e o sofrimento de nossos irmãos da “igreja perseguida”. Vejo a perseverança e o amor que têm por Cristo e pelo Reino de Deus. Infelizmente, não posso deixar de fazer um paralelo entre os “cristãos de lá” e os “cristãos de cá” e constatar que temos muito que aprender com eles*. Vejamos:


1) Em Bangladesh, o ex-muçulmano Abu Kalam é um exemplo de entrega total ao Senhor. Foi preso e acusado por seus vizinhos muçulmanos de tentar evangeliza-los. Recebeu ameaças de morte e pode ter de abandonar sua casa: "Estou pronto para ser um cristão, estou disposto a perder minha casa para Cristo, se meus vizinhos não me querem mais lá", disse ele.


em São Paulo, Janaina** foi ao culto num galpão apinhado de gente, e diante das câmeras desafiou Deus a dar-lhe uma casa, pois participou fielmente da Campanha promovida pela igreja, não faltou nenhuma vez, não quebrou a “corrente”, e agora veio cobrar o prêmio de seu esforço.


2) Nas Filipinas Joy Dimerin teve o noivo morto por um fanático islâmico: "Eu aprendi a ver o propósito de Deus na minha vida. Aprendi a aceitar as circunstâncias que se colocam à minha frente e as vejo como instrumentos de Deus para me moldar. Através da vida do meu noivo, eu aprendi a me comprometer com o ministério e com a oração. Através da sua morte, eu aprendi a estar sempre preparada para encarar o nosso Criador”.


Em terras brasucas, os cristãos de cá não costumam aceitar provas em suas vidas, e não reconhecem que Deus possa estar trabalhando neles em meio à dor. Ao contrário, toda e qualquer dificuldade é repreendida e encarada como alguma forma de maldição, e negam-lhes qualquer caráter purificador.


3) Na Índia, o pastor Roshan recebeu inúmeras ameaças de extremistas anticristãos caso voltasse a compartilhar o Evangelho novamente em suas aldeias. Em princípio, Roshan não se intimidou e voltou no dia seguinte. Foi atacado pelos extremistas com facas, varas e outras armas brancas.


Por aqui, neste exato momento, podem estar ocorrendo negociações de altos valores com algum pastor pop-star, envolvendo cláusulas que incluem hotéis luxuosos e cachês que começam em vinte mil reais, como costuma fazer um conhecido cantor que só aceita pregar e cantar a partir desse montante. Este crê em milagres, e precisa deles para não naufragar na fé. Aquele possui fé inabalável em Cristo, mesmo se o seu milagre não chegar.

4) Shi Weiha, dono de uma livraria cristã foi preso na China por imprimir cópias da Bíblia sem autorização. Sua esposa disse que os livros da loja eram legalmente impressos e vendidos, mas que o marido dela publicou muitos livros cristãos e Bíblias reservadamente sem autorização e os distribuiu entre igrejas domésticas, por isso foi preso.

No Brasil temos bíblias direcionadas para todos os gostos: para jovens, “teens”, empresários, para a família, para a mulher.... mas a despeito de tantas variedades, o interesse em estudá-la e compreende-la parece ser inversamente proporcional às facilidades de se ter uma. Hoje vale mais a palavra do apóstolo, do bispo, e das profecias que pululam nas igrejas que a Revelação Eterna do Evangelho que foi dado de uma vez por todas.


5) Numa igreja doméstica da China o encontro devocional começou às 8h30, com uma hora e meia de comunhão e estudo bíblico sobre o livro de Romanos. Por volta das 10 horas, o culto da igreja teve início. Com as janelas fechadas, para não serem denunciados, a temperatura na sala subiu a um nível tropical.


Em nossas planícies, igreja doméstica não faz muito sucesso, e uma hora e meia de comunhão e estudo bíblico espanta qualquer jovem que, normalmente busca algo mais eletrizante, que “mexa” com ele. Para atender a essas necessidades de estímulos, o culto foi transformado num grande caleidoscópio. É preciso ter muita sensação, muitas atrações, uma atrás da outra. Sem dúvida, o culto da Igreja Perseguida seria considerado em nossas terras enfadonho demais: “falta avivamento”, diriam alguns.


6) Os cristãos da igreja perseguida sempre terminam seus testemunhos pedindo: “Orem por nós!”. Eles confiam ardentemente no poder da oração. A súplica e intercessão uns pelos outros é o alimento diário deles, cada minuto de suas vidas é dedicado à intensa oração ao Senhor, da mesma forma que o apóstolo Paulo que orava o tempo todo no Espírito e conclamava à igreja a orar por ele.


Os cristãos de cá também pedem: “unjam o meu carro, unjam minha chave, minha moto, escrevam num papel, queimem na fogueira, levem minha foto, uma peça de roupa, façam correntes....”. A razão para isso parece-me clara: os cristãos nativos não confiam na oração pura, simples e sincera ao Pai; por isso precisam de toda sorte de rituais místicos para “incrementar” os pedidos.


Somos de uma geração que goza de liberdade de expressão. Às vezes fico pensando se tantas facilidades não produziram um povo indolente, acomodado e infantil, que busca auto-satisfação e facilidades para suas vidas. Para estes, as adversidades e as provas são como a semente que caiu em solo rochoso, e “chegando a angústia ou a perseguição, logo se escandalizam”. Há uma palavra do apóstolo Paulo, que nunca foi muito bem assimilada na cristandade ocidental, mas plenamente compreendida e vivida pelos “cristãos de lá”:

“Porque vos foi concedida a graça de padecerdes por Cristo e não somente de crerdes nele” (Fp 1.29).

Daniel Rocha, pastor da Igreja Metodista, e psicólogo



* todos os relatos da igreja perseguida são verídicos


**nome fictício

Quarta-feira, Fevereiro 20, 2008

108: Resenha - O Ministério Pastoral segundo a Bíblia

John Armstrong foi pastor batista por mais de 20 anos. Após o período de pastoreio nas igrejas, ele fundou e dirige o Reformation & Revival ministries que tem como alvo encorajar a reforma e o despertamento espiritual nas igrejas. De sua autoria, traduzido para o português temos escrito e organizado por ele os livros, O mistério católico, Justificação pela fé somente e Sola Scriptura, todos da mesma editora deste livro resenhado.
O ministério pastoral segundo a Bíblia foi o nome dado para a tradução de Reforming pastoral ministry , o que deixa claro o objetivo do livro: a reforma no ministério pastoral. Alguns pastores inseridos na tradição reformada tem salientado sobre a urgente necessidade de resgatar a cosmovisão reformada (bíblica) aplicada ao ministério. A história da igreja é recheada de bons exemplos para que tal resgate seja refletido e exercido nas igreja, o que rebate a crítica de que adeptos da persuasão reformada ficam limitados somente aos ambientes acadêmicos e intelectuais (embora, acertadamente, a tradição reformada zela pela excelência acadêmica junto com a piedade, integridade moral e ortodoxa. Como disse um amigo: Na história do cristianismo, fogo e luz caminharam juntos em muitos elementos relevantes).
O modelo esta obra segue , em alguma medida, o excelente livro Amado Timóteo: Coletâneas de cartas ao Pastor. Organizado por Tom Ascol e editado pela Editora Fiel. A diferença é que neste último, os articulistas escrevem em formato de carta enquanto no livro resenhado aqui, os articulistas escrevem em formato de artigos acadêmicos, embora os temas sejam bastante práticos , ex: reformando a igreja em oração, fé, entre outros.
Armstrong deixa claro que está debaixo da influência de Richard Baxter no momento em que organizou o texto. Ele excreve: " Tão grande tem sido a influência do pensamento e do ministério de Richard Baxter sobre mim que senti que um moderno livro sobre ministério pastoral ...era necessário" (p. 16). Não obstante, deixa claro que "este livro não tenta reproduzir Baxter" argumentando que seria necessário brilhantismo e profundidade. Então ele diz que esta obra "procura entender a época no qual vivemos, os desafios que os modernos ministros realmente enfrentam e a necessidade da congregação e da liderança não-ordenada de entender melhor o que a vida e a obra pastoral realmente são" (p.16).
Alguns articulistas são conhecidos no Brasil pela passagem na conferência Fiel para pastores e líderes, a saber, Jim Elliff, Jerry Marcelino, o conhecido Mark Dever (9 marcas de uma igreja saudável - que colabora com um excelente artigo sobre evangelização - bastante prático com profundidade teológica) e alguns dos preletores deste ano, Joel Beeke (especialista em puritanismo) e Phil Newton (autor do recém lançado Pastoreando o rebanho de Deus, que contribui com um texto sobre crescimento de igrejas e o pragmatismo).
A leitura é bastante agradável, proporcionando reflexão sobre a essência do ministério pastoral. Uma boa marca desta obra é a aplicação desta essência diante dos desafios contemporâneos enfrentado pelos ministros em militância. O livro deixa claro que a Bíblia , Palavra de Deus, revelação inerrante, é que deve reger o ministério pastoral e não as técnicas empresariais, nem teorias de marketing ou algum outro modelo e padrão não-revelado. A capa mostra bom gosto e estilo quando escolhe uma gravura aparentando um gabinete pastoral bem aconchegante desfrutada por pessoas de boa aparência e classe média alta. Nada diferente do padrão de excelência almejado pela editora que publicou o livro e a denominação que esta serve. A única dificuldade é afastar do livro pastores que militam em contextos mais humildes neste Brasil (zona rural, periferia urbana, favela, bairros de classe baixa, etc....). Mas de maneira nenhuma desqualifica esta boa produção publicada exatamente quando o tema está bastante evidente entre os pensadores reformados. Esta obra deve ser lida por todo pastor, tanto pela função quanto pela integridade doutrinária que permeia este livro e também por todo cristão, líder ou não, que almeja compreender a tarefa daqueles que são chamados por Deus para pastorear o rebanho Dele. Que Deus use esta obra para a edificação dos pastores, presbíteros e consequentemente a igreja e o Reino. Vale a pena adquirir. Boa leitura!