Terça-feira, Agosto 21, 2007

095: Entrevista sobre hermenêutica

A presente entrevista foi uma tarefa acadêmica de uma aluna do SBPV que está ativa em seu estágio ministerial aqui na congregação onde ministro. Ela teve que entrevistar um pastor sobre o uso da hermenêutica na igreja e me concedeu a honra. Resolvi publicar a entrevista aqui.
1 - Qual a importância da hermenêutica para você?
R: A hermenêutica é de máxima importância. Significa a ciência da interpretação bíblica. O falecido téologo Julio de Andrade Ferreira dizia que "a Bíblia é a mãe de todas as heresias". As escrituras mal interpretadas causam terríveis danos. Originalmente, hermenêutica veio da mitologia grega, em que Hermes escutava as conversas dos deuses e levava aos homens. Quer queiramos, quer não, nós pastores praticamos a hermenêutica ao expor as Escrituras. O ponto é: praticamos uma boa ou uma ruím hermenêutica? Se praticamos uma boa hermenêutica, teremos um púlpito sólido, uma boa Escola Dominical e um excelente discipulado gerando crentes sádios e maduros em nossas comunidades. Mas se praticamos uma má hermenêutica, geramos dúvidas, incertezas, crentes neuróticos, analfabetos biblicamente e imaturos espiritualmente. Isso não quer dizer levar a academia para a igreja composta de gente simples, mas sim expor as Escrituras com fidelidade e reverência ao texto sagrado. Portanto a hermenêutica é de suma importância e vital para a Igreja de Cristo.

2 - Quais princípios da hermenêutica você mais utiliza?
R: Pessoalmente, como cristão evangélico e pastor que sou, utilizo uma hermenêutica de aceitação e afirmação do texto bíblico, ao contrário dos liberais que suspeitam da veracidade e historicidade do evento escriturístico. Aquilo que a Escritura afirma , eu aceito como verdade revelada de Deus e como Agostinho de Hipona, o doutor da graça, e depois Anselmo "credo ut intelligam" - creio para compreender.
Depois, interpreto a Bíblia histórico-gramaticalmente. Aceito o evento como histórico e a inspiração gramatica dos textos na versão original da Escritura. Esse método veio da escola de Antioquia que procurava compreender o que o texto dizia em detrimento da escola de alexandria que alegorizava o texto. Essa foi a luta dos reformadores Lutero e Calvino. Não que eles tenham acertado 100%, nenhum homem o conseguiu, mas lutaram pela autoridade e interpretação correta das Escrituras. Eles inauguraram o método histórico-gramatical em detrimento da alegorização da igreja de Roma. Ou seja, interpreto literalmente.
Infelizmente hoje, muitas comunidades e ensinadores alegorizam o texto bíblico nos púlpitos e na dinâmica da igreja. Usa-se uma intrepretação somente emocional e existêncial fugindo do propósito original do texto. A consequência é uma falta de maturidade e solidez bíblica na igreja de Cristo no Brasil.
E terceiro, utilizo a hermenêutica reformada, seguindo em boa medida Calvino e os puritanos. Leio a Bíblia através dos credos históricos (Apostólico, Nicéia, Calcedônia e também as confissões puritanas, exceto um ponto aqui e acolá que tenho divergência pessoal. Leio também a Bíblia crendo na doutrina do pacto e na teologia da aliança que permeia e é um fio condutor dos dois testamentos. Leio a Bíblia através de minha crença na soberania de Deus em todas as coisas, até na salvação de pecador unicamente pela graça de Deus mediante a fé em Cristo (Ef. 2:8). Dentro do bojo evangélico e de uma teologia conservadora, tenho facilidade em dialogar e conviver com quem pensa diferente nesse terceiro ponto.
3 -Cite alguns erros hermenêuticos que já cometeu. (já ensinou algo errado, falou algo e depois precisou concertar....etc.)
R: Citarei 2 exemplos:

Quando comecei a pregar (5 meses de convertido) , não tinha muito conhecimento bíblico, então alegorizava o texto. Tinha uma idéia e então usava o texto bíblico para confirmar minha idéia e não o contrário: pregar a idéia que o texto bíblico estava passando. Eu dizia o que o texto não estava dizendo. Espero não ter causado muitos estragos!
No meu 1o ano de seminário me encantei com o método histórico-crítico (estudei em uma escola com a maioria dos docentes liberais). É um método liberal que suspeita do texto bíblico e causa danos a igreja de Cristo gerando dúvidas e incertezas. Cheguei a pregar 2 sermões utilizando esse método, mas graças a Deus, no 2o ano, Deus trabalhou meu coração e eu percebi que esse método nada tem a ver com o cristianismo e pude então consertar o erro.

Sexta-feira, Agosto 17, 2007

094: Faleceu o pastor e professor Darci Dusilek

Com tristeza comunicamos o falecimento do pastor e professor Darci Dusilek de infarto fulminante, ocorrido na noite desta quinta-feira, dia 16 de agosto. Seu corpo será levado para a Capela do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil na Rua José Higino, 416 – Tijuca – Tel.: 21 2570-1833, onde será realizado um culto de gratidão por sua vida, às 14 horas. O enterro será às 16 horas no Cemitério do Caju – rua Carlos Seidl, s/nº – Caju.Darci Dusilek era bacharel em Teologia (STBSB, 1968), Filosofia e Letras (Universidade de Mogi das Cruzes, 1974), e possuía curso de especialização em Documentação Científica (UFRJ, 1972) e mestrado em Ciência da Informação (UFRJ, 1974). Líder batista atuante, foi diretor da Visão Mundial, pastor da IB Itacuruçá, presidente da Ordem dos Pastores Batista do Brasil e da Convenção Batista Brasileira. E como escritor publicou várias obras, entre elas destacamos: Teologia ao Alcance de todos - inclusive você; A igreja; Modelos de Igreja no Novo Testamento; A Arte da Investigação Criadora: Uma Introdução à Metodologia Cientifica, Marcas da Igreja; Oásis no Deserto; Amargura ou amar cura?; A Nova Vida em Cristo; e O que Deus sabe sobre o meu futuro? Atualmente era diretor da Escola de Teologia da Universidade do Grande Rio "Prof. José de Souza Herdy" (UNIGRANRIO) e professor de teologia sistemática do STBSB e do Seminário Batista de Duque de Caxias. Oremos por sua esposa Nancy Dusilek e seus filhos, pr. Sérgio Dusilek e Heloísa Gonçalves Dusilek.
Fonte: Site da CBB.

Segunda-feira, Agosto 13, 2007

093: Café com Bíblia - Porque mudei o nome do blog

Nova vida, nova fase, mudança de cidade e mudança de ministério. Término do curso de teologia e ingresso no ministério pastoral. Assim é minha vida dinâmica nas mãos de meu Deus. É como o vento que sopra e leva minha mente e meu coração de acordo com a vontade Dele. Quando resolvi fazer um blog, a idéia era escrever algumas coisas que aprendi no seminário dentro das lutas que passei frente ao liberalismo teológico. Usava os termos técnicos e me esforçava para manter uma boa lógica e sagacidade nos argumentos. Fui um seminarista apaixonado pela teologia e me expressava no blog.
Agora , no ministério, continuo com as mesmas convicções bíblicas e as amadurecendo a cada dia no temor do Senhor. Continuo crendo que a teologia reformada é a melhor interpretação das Escrituras e peço que Deus mantenha a minha firmeza nas convicções sobre a sua soberania e graça.
Penso que um nome mais simples pode definir essa fase atual do pastoreio: Café - tomo todos os dias nesse friorento e montanhoso pacato Sul de Minas e Bíblia: revelação de Deus, regra de fé e prática, autoridade na Igreja de Cristo.
Espero que Deus continue me usando em Sua obra, seja no pastoreio da igreja, seja na reflexão aqui para ser benção na internet.
Dedico esta postagem a Congregação Batista em Itapeva de Minas que tem me ensinado a ser simples e firme ao mesmo tempo.

Sábado, Agosto 11, 2007

092: Combatendo Seitas e Heresias 2 - Congregação Cristã do Brasil

2 – Congregação Cristã do Brasil

2.1 Histórico e surgimento

A Congregação Cristã do Brasil[1] surgiu em 1907 a partir de uma cisão na Igreja Presbiteriana do Brasil. Seu líder chama-se Louis Francescon, nascido em Udine, Itália em 29 de Março de 1866. Em 1890 migra para Chicago, Illinois, EUA e conhece o evangelho através de seu irmão Miguel Nardi. Francescon se juntou a Igreja Valdense[2] e logo depois a uma Igreja Presbiteriana que congregava italianos imigrantes. Francescon foi eleito diácono daquela igreja e rompeu após ter uma “revelação”. Começou a questionar o batismo por aspersão e a partir do texto de Cl 2:12 entendeu que o batismo salvava. Assim veio para o Brasil e fundou a CCB. Iniciou o trabalho em colônias italianas no Estado de São Paulo e Paraná. A CCB experimentou um rápido crescimento e tem rivalidade com a Igreja Assembléia de Deus por terem sido fundadas no mesmo período.[3]
Segundo o prof. Luiz Sayão, a CCB tem a prática de considerar os evangélicos como afastados da verdade[4]. Sua confissão de fé é estritamente evangélica na doutrina e muito se assemelha com os evangélicos tradicional-históricos exceto na ênfase do falar em línguas como evidência do batismo no Espírito se assemelhando nesse ponto a compreensão pentecostal[5]. O que a separa dos evangélicos é a sua prática eclesiástica. A hierarquia está dividida em Anciãos, Cooperador, Cooperados de jovens e Diácono e tem sua abrangência no Brasil. Paraguai, Argentina, Portugal, EUA, Itália e Espanha[6]. L. Francescon faleceu em 07 de Setembro de 1964 em Oak Park , Illinois, EUA após vir mais ou menos dez vezes ao Brasil (entre 1910, ano da fundação oficial e 1948[7]) para estabelecer e estabilizar o trabalho da CCB. Algumas características do grupo é que seus membros fazem uso de bebidas alcoólicas e os dirigentes não estudam a Escritura, apenas seguem a “iluminação” do Espírito. Apesar da separação da Assembléia de Deus, a CBB sustenta a ênfase na necessidade do batismo com o Espírito Santo após a conversão e o falar em línguas como evidência de tal batismo e a santificação perfeita conforme ensinada por John Wesley[8].[9]

2.2 Doutrinas peculiares da CCB

Aqui serão analisadas as doutrinas da CCB que torna o grupo sectário e não considerado evangélico. Diferente da IASD que avaliamos anteriormente, a CCB tem o seu caráter sectário na prática eclesiástica e seus costumes.
2.2.1 Somente os membros da CCB são salvos.
2.2.2 O Batismo é a condição Sine qua non para a salvação.
2.2.3 Os pregadores devem ser “iluminados” para pregar. O Espírito Santo dirige tudo, não há necessidade do preparo e estuda nas Escrituras.
2.2.4 A observação e a prática do uso do véu pelas mulheres em culto público segundo o texto de 1 Co 11:1-16 e outros costumes como a obrigação de saudar com a paz de Deus, a prática do ósculo santo e a obrigação de orar de joelhos.
2.2.5 É pecado dizimar, pois o dízimo é lei e vivemos no período da graça.
2.2.6 Jesus Cristo é o único pastor da Igreja. Os restantes são mercenários. Os dirigentes não devem receber salário.
2.2.7 Não devemos pregar o evangelho, pois este escandaliza. Só devemos se Deus mandar.

2.3 Refutação

2.3.1 Somente os membros da CBB são salvos.
Em nenhum momento a Escritura afirma que a salvação é exclusiva a algum grupo ou instituição religiosa. A salvação do pecador é exclusividade da pessoa de Jesus Cristo.
“E em nenhum outro há salvação; porque debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, em que devamos ser salvos.” Atos 4:12
“Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem,” I Timóteo 2:5

2.3.2 O batismo por imersão em água corrente é a condição para a salvação
Francescon extraiu essa doutrina de sua compreensão de Cl 2:12
“tendo sido sepultados com ele no batismo, no qual também fostes ressuscitados pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos;”

O texto não quer dizer isso. O livro de Colossenses ensina sobre a excelência e o senhorio de Cristo sobre todas as coisas e particularmente o texto tem como foco a divindade de Jesus aplicada em nossa salvação. Francescon extraiu a doutrina do texto sem prestar atenção no contexto.
O batismo é uma ordenança de Jesus, uma marca para o discípulo remido e regenerado, mas em si mesmo não salva (Rm 6: 1-11).

2.3.3 A “iluminação” para pregar em detrimento do estudo
Essa prática contrária o texto de 2 Pedro 3:18
“antes crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja dada a glória, assim agora, como até o dia da eternidade.”

O texto orienta a igreja a crescer no conhecimento do Senhor Jesus, ou seja, no entendimento e isso requer estudo e compreensão sobre a pessoa e a obra redentora na cruz de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.
O apóstolo Paulo orienta o jovem Timóteo a cuidar de sua piedade e do ensino da sã doutrina (1 Tm 4: 6-16). O próprio Paulo era um estudioso. Devemos crer que o Espírito Santo ilumina nossas mentes e corações para o entendimento das Escrituras, pois ele testifica em nossos corações. Mas a iluminação anda de mãos dadas com o estudo. O texto acima nos orienta a crescer na graça e no conhecimento. Um aliado do outro, a experiência e o entendimento lado-a-lado.

2.3.4 Usos e costumes
A prática do véu pode ter sido instituída por Paulo aos corintos como substituição do cabelo para as mulheres que anteriormente haviam sido sacerdotisas da deusa Afrodite e raspavam a cabeça para cumprir essa função. O que está em jogo é a função e autoridade do homem e da mulher. O uso do véu em si não é uma pratica sustentada pelas Escrituras.
Quanto a saudação, ela vai de acordo com cada igreja. A saudação era muito comum na época assim como o ósculo santo. A Bíblia não nos manda colocar esses costumes em prática. Ela nos ensina a colocar em prática o nosso amor uns pelos outros. A oração de joelhos é uma prática louvável de prostração a Deus, mas em nenhum lugar a Escritura é taxativa em ensinar que essa é a única prática correta.

2.5 É pecado dizimar.
Textos como Malaquias 3:10 e 2 Co 9 sustentam o princípio de “separar uma parte do todo” para contribuir com a congregação. É função de cada crente contribuir com o trabalho e dizimar não é pecado mas uma honra e privilégio para o crente ter parte na obra de Deus.

2.6 Não pode haver pastores
Cristo designou apóstolos para a sua igreja. Paulo defende os direitos desse apostolado (1 Co 9). O oficio pastoral e seu sustento tem base nas Escrituras.
“Ficai nessa casa, comendo e bebendo do que eles tiverem; pois digno é o trabalhador do seu salário. Não andeis de casa em casa.” Lucas 10:7

“Assim ordenou também o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do evangelho.” 1 Co 9:14

“17 Os anciãos que governam bem sejam tidos por dignos de duplicada honra, especialmente os que labutam na pregação e no ensino.18 Porque diz a Escritura: Não atarás a boca ao boi quando debulha. E: Digno é o trabalhador do seu salário.” 1 Timóteo 5:17-18

2.7 Não pregar o evangelho, somente quando Deus mandar.

As Escrituras ensinam exatamente o contrário.

“E disse-lhes: Ide por todo o mundo, e pregai o evangelho a toda criatura.” Marcos 16:15

“prega a palavra, insta a tempo e fora de tempo, admoesta, repreende, exorta, com toda longanimidade e ensino.” 2 Timóteo 4:2

Essa falsa doutrina vem de uma compreensão míope da doutrina da predestinação, pois Francescon era de origem valdense e presbiteriana.[10] Por isso a CCB não faz uso de nenhum meio para divulgar a mensagem do evangelho.


Conclusão

É louvável o estudo das correntes doutrinárias que se afastam da verdade. Precisamos conhecer o erro para refutar. Mas gostaria de terminar com uma palavra pastoral. Entrevistaram uma mulher que era especialista em flagrar quadrilhas que falsificavam notas de dinheiro. Perguntaram a ela como conseguia e se ela estudava muito as notas falas e ela respondeu que não, que estudava muito a verdadeira. O ponto aqui é, para refutar o erro precisamos conhecer a verdade. Devemos como crentes estudar as Escrituras e como interpretar. Devemos estudar bons manuais de doutrina e também história da igreja para saber como as igrejas se posicionavam. Assim conheceremos mais sobre o glorioso evangelho e a obra de Deus.

[1] A partir daqui CCB.
[2] Igreja de confissão protestante nascida na Itália a partir de Pedro Valdo que rompeu com a Igreja Romana. Esse fato aconteceu antes mesmo da reforma protestante. Foi no século XIII.
[3] http://www.ibnpaz.hpg.ig.com.br/textos/crista_brasil.htm%20-%20Acesso%20em%2020/06/2007.

[4] SAYÃO, Luiz. Op Cit.
[5] A Declaração de Fé da CCB pode ser encontrada no apêndice.
[6] http://www.jornaldosamigos.com.br/igrejas_evangelicas_brasil.htm%20-%20Acesso%20em%2020/06/2007.

[7] CAMPOS, Leonildo Silveira. Protestantismo Histórico e Pentecostalismo no Brasil: Aproximação e Conflito. In GUTIERREZ, Benjamin F. e CAMPOS, Leonildo Silveira (org). Os Pentecostais na América Latina: Um desafio as Igrejas Históricas. São Paulo : Associação Literária Pendão Real, 1996. P. 85.
[8] John Wesley, fundador do metodismo, ensinou a doutrina do perfeccionismo cristão dizendo que o crente pode chegar a um estado de santidade e não pecar nessa existência.
[9] SAYÃO, Luiz. Op Cit.
[10] Existe um debate no meio evangélico quanto a predestinação. Se dividem basicamente entre calvinistas (Deus escolheu, predestinou e elegeu os salvos) e arminianos (o indivíduo tem o livre-arbítrio para escolher a salvação). Ambas as correntes tiveram inúmeros evangelistas na história da igreja. Francescon se aproximou de uma outra corrente chamada hiper-calvinismo que ensinava que não se precisava pregar o evangelho para os pecadores. Muitos confundem essa percepção com o calvinismo. George Whitefield e Charles Spurgeon foram grandes evangelistas ingleses e tinham a compreensão calvinista da doutrina da salvação.