“(...) esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz; há somente um corpo e um Espírito como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só Fé e um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos.” Efésios 4: 3-6
“Naquilo que é essencial:Unidade ; Naquilo que não é essencial: Liberdade ; Em todas as coisas: Caridade (Amor)” Richard Baxter
Hoje me encontro numa realidade completamente diferente de onde morei por 27 anos. Há uma diferença entre pastorear numa cidade grande como o Rio de Janeiro, capital de um Estado e pastorear numa cidade rural como Itapeva de Minas, à 1 hora de meia de São Paulo, capital. Nesta cidade a população é majoritariamente católico-romana. Isso faz com que as denominações evangélicas tenham certa aproximação. Não via essa proximidade na cidade onde vivi. Dizem que no passado existia uma rivalidade entre as denominações. Membros de certa igreja não podia tomar a Ceia do Senhor na outra. Os distintivos peculiares de cada uma eram defendidos como se fossem essenciais na fé cristã e as vezes o membro de tal igreja sabia e defendia mais os distintivos peculiares do que as verdades essenciais do cristianismo básico ou podemos chamar de evangelho puro e simples. Hoje essas diferenças parecem ter sido superadas na perspectiva denominacional, embora algumas igrejas estando atrasadas mantenham essa prática. Existe competições na perspectiva empresarial que algumas igrejas (com todas as dificuldades ainda chamarei de igreja, pois por algum mistério , Deus tem seus eleitos nesses locais) mantém em seu escopo e configuração eclesial (ou empresarial). Hoje, período em que é nítido o relativismo, subjetivismo e irracionalismo como sugerem alguns estudiosos, as igrejas tem se unido mais por afinidades teológicas e doutrinárias e não por uma bandeira denominacional, sendo bom ou ruim, parece fato. Dentro disso tudo, aonde quero chegar é que me vejo num local onde tenho como responsabilidade uma congregação batista e isso implica em testemunho. Como me relacionar com aqueles que pensam diferentes e que diferenças são vitais ou não a respeito do que a Escritura revela sobre o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo? Me peguei pensando nisso porque assim que cheguei a cidade, um pastor de uma comunidade independente me procurou para estabelecer laços e freqüentar uma reunião para estabelecer estratégias para a evangelização da cidade. É óbvio que tenho um crivo teológico (e conseqüentemente bíblico) para exercer essas atividades. Mas há uma tensão entre participar e me isolar. Resolvi participar. Assim nessa reunião estavam representadas três igrejas das sete que existem na cidade (daquelas que podemos chamar de evangélicas, o que será esclarecido mais a diante). Duas das que não foram saíram como divisão de uma que estava presente e uma que não foi provavelmente foi fruto de divisão de uma que estava presente. Alguns já devem ter visto esse filme antes. Nossa igreja é o único trabalho histórico da cidade e outra denominação já tentou plantar uma igreja lá, porém sem sucesso.
Quem me conhece de perto sabe de meu carinho para com Richard Baxter. Sabe como fui impactado com a leitura do livro O Pastor Aprovado, Ed. Pes, leitura que procuro repetir sempre quando oportuno. Baxter lutava contra o denominacionalismo, ou seja, a atitude sectária de cada denominação. Não estou colocando que não devemos amar nossas denominações. Eu, por exemplo, amo minha denominação Batista, Cristo me converteu nela, compreendo um dos seus distintivos particulares como Bíblico (confesso que não vejo o congregacionalismo como explicitamente bíblico, embora um sistema que tenha suas vantagens e desvantagens também. Vejo como bíblico a pluralidade de presbíteros na igreja local, mas esse é um outro assunto). Mesmo amando minha denominação, compreendo não sermos donos da verdade (e sim servos dela) e que devemos nos relacionar com outros irmãos em Cristo. A questão é quem é nosso irmão em Cristo? E até onde nos relacionar devido às diferenças?
Sabemos que a Igreja de Jesus Cristo é una por toda à parte da terra em todos os momentos da história até a consumação dela. Cristo orou em João 17 por todos aqueles que haveriam de crer em sua Palavra. A questão é que tem grupos que se afastam e distorcem a Palavra de Deus. Esses, o teólogo Wayne Grudem chama de igreja-falsa em sua teologia sistemática. A Segunda Confissão de Fé Londrina de 1689, batista, no seu capítulo sobre eclesiologia, diz que existem igrejas que se corrompem e se degeneram a tal ponto que acabam se tornando sinagogas de Satanás. Aqueles que permanecem na verdade, Grudem os chama igreja verdadeira. Dentro da igreja verdadeira, existem as igrejas-puras e as igrejas menos puras.
Essas classificações serão feitas aqui na postagem de acordo com o princípio da frase atribuída a Richard Baxter citada acima:
“Naquilo que é essencial: Unidade”
Precisamos aqui definir o que é essencial para a fé cristã. E nesse essencial estar toda a unidade da Igreja do Senhor Jesus espalhada por todo canto na face da terra, em todos os tempos. Podemos levar em conta a classificação de Agostinho de igreja visível (o corpo presente em instituição) e invisível (aqueles que Deus sabe que pertencem a Ele). Mas como classificar o meio de entrada para a igreja visível. Lógico que não posso e nem ninguém se colocar no lugar de julgar mas há autores e a própria revelação bíblica esclarece essa questão. A Bíblia Sagrada deixa claro que em nenhum outro nome há salvação (Atos 4:12). Quem crê no Senhor Jesus Cristo será Salvo (Atos 16:31 ; Romanos 10:9). Ele (Cristo) morreu por pecadores (Marcos 10:45), para expiar a culpa do pecado (Romanos 3:25). Aqui está um ponto central no cristianismo, Jesus morreu por pecadores para salva-los de sua condição de maldito (Gl 3:10), só Jesus salva. Esse Jesus que morreu por pecadores não era um homem comum, mas sim Deus encarnado na humanidade (Fl 2:5-11). Temos então um ponto: Jesus Cristo é Deus e morreu pelos nossos pecados. Dentro da reflexão sobre a divindade de Cristo podemos colocar então, seu nascimento virginal, sua morte, sua ressurreição (Pilar da nossa fé – 1 Co 15), sua ascensão e sua volta física e pessoal. Outro ponto seria que esse Jesus de quem falamos é a revelação do Pai. E o seu nascimento virginal foi obra do Espírito Santo, uma terceira pessoa. Outro ponto então seria a tri-unidade de Deus, ou a doutrina da trindade. Podemos acrescentar também a misteriosa união das duas naturezas de Cristo (Deus-homem). Embora muitos crentes não meditem nisso (e realmente é um mistério) , faz parte da ortodoxia (verdade) cristã. Então somos salvos para a vida eterna, habitação com o Senhor por toda a eternidade e ressucitaremos quando Jesus Cristo voltar em glória e majestade.
O gnosticismo tinha a prática de distorcer as Escrituras, principalmente em pontos como a divindade de Cristo e sua humanidade. Assim, os cristãos ao longo da história escreveram credos para afirmarem e confirmarem sua fé e usarem os mesmos como critério hermenêutico (método de interpretação bíblica) para entenderem as Escrituras. Então podemos citar um deles, o Credo Apostólico.
“Creio em Deus, o Pai onipotente, Criador do céu e da terra.
E em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, o qual foi concebido do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu aos infernos, no terceiro dia ressucitou dos mortos, subiu aos céus, está sentado à destra de Deus, o Pai onipotente, donde há de vir para julgar os vivos e os mortos.
Creio no Espírito Santo, a santa igreja católica (universal) [cristã] , a comunhão dos santos, a remissão dos pecados, a ressurreição da carne e a vida eterna. Amém.”
Tirando o ponto “desceu aos infernos” que é baseado numa interpretação de um texto de 1 Pe, todo cristão tem de crer no que está afirmado ali. Toda afirmação deste credo, exceto a citada, tem base bíblica e é central na fé cristã. Esse foi o primeiro credo a ser registrado pela tradição da igreja e não tem como ser cristão negando os pontos presentes neste credo.
É claro que as heresias sempre existiram na igreja, sempre voltando com roupas novas. Com o advento do liberalismo teológico, fruto do movimento iluminista que trocou Deus pela razão, a Bíblia foi colocada em cheque com pressupostos crítico-históricos de interpretação oriundos de uma cosmovisão naturalista. Então em 1910 surgiu um movimento nos Estados Unidos chamado fundamentalismo, que originalmente militava pelo retorno aos fundamentos da fé cristã, alicerçados na inerrância e infalibilidade das Escrituras, inspiradas por Deus e a divindade de Jesus Cristo.
Não entrarei no mérito se os neo-ortodoxos (movimento que tentou caminhar com a ortodoxia e liberalismo, em seu criticismo bíblico de mãos dadas) que negam a inerrância são genuinamente convertidos (não posso julgar, sou ciente disso), mas há uma dificuldade pessoal em estender a destra da comunhão com quem não crê em inerrância das Escrituras.
Pode-se arriscar em dizer que todos que crêem nestes pontos devem ter comunhão e diálogo e pertencem a família de Deus:
Existência de um único Deus.
Tri-unidade desse Deus (trindade).
Jesus Cristo, Deus encarnado (União das duas naturezas). Nascimento virginal e milagres.
Jesus Cristo como único caminho para a salvação do pecado pela fé Nele, em sua morte e ressurreição.
Volta literal de Jesus Cristo
Ressurreição dos mortos: juízo eterno para os incrédulos e vida eterna para os que creram.
Crença nas Escrituras como revelação sem erros e regra de fé e prática.
Sei do risco que corro aqui. A discussão é no campo da ortodoxia e ninguém é salvo por exatidão teológica. Acredito também que existem irmãos e irmãs excelentes em piedade mas com pouca capacidade cognitiva e de concatenar idéias, portanto experimentam (dimensão subjetiva da fé) a salvação mas podem não saber conceituar algumas coisas. Porém o que é certeza é que foram salvas por Cristo e essa salvação é ligada aos pontos descritos acima, como revelados biblicamente. Também podem ter aqueles que professam essa crença mas não são nascido de novo.
Então toda denominação que professa essa fé (claro que há níveis de prática e coerência com essa fé) pode ser chamada de Igreja Evangélica, porque crê no verdadeiro evangelho de Cristo revelado nas Escrituras Sagradas. Então evangélicos histórico-tradicionais, pentecostais, carismáticos podem ter um certo diálogo fraternal em comunhão pela fé comum no cristianismo puro e simples e buscarem aprender uns com os outros e divulgarem a salvação na pessoa bendita do Senhor Jesus.
“Naquilo que não é essencial: Liberdade”
Vimos no primeiro princípio extraído da máxima baxteriana que há uma definição do que é ser evangélico e do que essencial para a fé cristã. Agora veremos as nuances não-essenciais. Imaginemos um avião sobrevoando uma cidade chamada “Evangélica”. Foi onde sobrevoamos na reflexão acima. Imaginemos esse avião descendo a cidade “Evangélica” e sobrevoando as ruas principais e travessas. Isso que veremos aqui. Dentro das crenças que podemos chamar evangélicas, existem uma variedade de interpretações acerca de textos e práticas das Escrituras. Os presbiterianos e batistas são em origem calvinistas e os metodistas e nazarenos arminianos na soteriologia (doutrina da salvação), mas tem em comum a fé em Cristo como salvador. Mas entre presbiterianos e batistas há divergência quanto a idade para o batismo (pedo-batismo ou batismos de adultos) e quanto ao método (aspersão ou imersão) mas tem em comum a crença na doutrina da justificação pela fé em Cristo. Dispensacionalistas ou aliancistas-pactuais crêem de maneira diferente na forma como Deus administra seu relacionamento redentor para com a humanidade na história. Mas ambos crêem na volta de Cristo e na autoridade das Escrituras Sagradas. Pré-milenistas, a e pós também crêem ambos na volta do Senhor Jesus de maneira física e pessoal. A diferença está na compreensão de como isso vai acontecer. Evangélicos históricos-tradicionais crêem que os dons extraordinários cessaram ou existem mas não são evidências de um batismo no Espírito após a conversão, algo já tido como evidência de maturidade espiritual nos grupos de persuasão pentecostal. Entre os evangélicos históricos a questão da cessação dos dons extraordinários não tem uma posição unânime, alguns crêem que cessaram, outros que continuam. Ainda entre os evangélicos históricos (batistas, presbiterianos, luteranos, metodistas, anglicanos, congregacionais, etc...) existem aqueles que crêem num segundo batismo no Espírito. Por mais que se tenha as devidas crenças e interpretações das Escrituras e as aceitemos como revelação de Deus, deve-se ter tolerância e diálogo relacional com aquilo que não é essencial para a salvação do ser em Cristo Jesus e com aqueles que professam a fé no único e suficiente salvador. Isso implica em liberdade.
Lógico que se deve ter uma escala para esses relacionamentos: Por exemplo, o editor desse blog crê na teologia reformada como interpretação das Escrituras, ou seja, as doutrinas da graça em seus cinco pontos, a suficiência das Escrituras, a doutrina do pacto e da aliança, escatologia a-milenista (ou como sugere A. Hoekema, milênio realizado). E como pastor batista, eclesiologia regida por uma pluralidade de presbíteros e batismo por imersão. Portanto, o relacionamento ficará mais fácil em escala com aqueles que se aproximam das mesmas interpretações e aceitações de pontos em comum nas Escrituras, ex: relacionamento fácil e admiração com os presbiterianos pela crença em comum nas doutrinas da graça e na justificação pela fé. Também com pentecostais que tem se aproximado dessas percepções (esse é um fenômeno no evangelicalismo: pentecostais se aproximando da fé reformada , ou mesmo a aderindo). Fica assim a preferência para relacionamentos: Igrejas que adotam as confissões reformadas e os catecismos como símbolo de fé – Confissão de Fé e Catecismos Maior e Menor de Westminster ; Confissão Belga, Catecismo de Heildeberg e Cânones de Dort ; Segunda Confissão de Fé Londrina de 1689 (Batista) ; Declaração de Savoy (Congregacional) ; 39 artigos da religião (Anglicana) e em alguns pontos, Confissão de Fé de Augsburgo (Luteranos) e claro, todos os pentecostais-carismáticos que tem abraçado a cosmovisão reformada. Com esses há uma familiaridade maior para o autor deste texto.
Como pastor batista dentro de uma denominação cuja declaração doutrinária abrange várias correntes teológicas e se afirma no que é essencial na fé, há uma disposição para a tolerância com arminianos, carismáticos e dispensacionalistas por ex. Essa Tolerância não significa chamar alguém influenciado pelo pelagianismo (doutrina que ensina que o indivíduo nasce moralmente neutro e se enclina para o mal a medida em que vive e nega a doutrina bíblica e calvinista da depravação total) ou pela metodologia pragmática praticada por Charles Finney (por mais que fosse um homem crente, sua teologia era controversa e anti-bíblica em alguns pontos) para pregar e/ou ensinar em minha igreja, ou seja, não permitiria um pelagiano no púlpito da igreja onde pastoreio. Tolerância não quer dizer concordar, mas respeitar a liberdade dentro do que significa ser cristão e evangélico no ambiente democrático em nosso país e constituição. Liberdade no que não-é-essencial para a salvação da alma não quer dizer concordar e aceitar para si, mas sim em respeitar e amar, o que veremos no próximo ponto.
“Em todas as coisas: Caridade (Amor)”
As definições de amor nas Escrituras encontram-se em João 3:16 e 1 Co 13. O amor é uma ação em favor do próximo aonde é exigida a doação de si próprio. “O amor é mais atitude do que sentimento” John Stott. O amor bíblico não é mera contemplação platônica e sim uma ação prática denominada caridade. Essa caridade é o fio condutor para o relacionamento entre irmãos em Cristo. Esse amor faz com que todos aqueles que estão em Cristo se reúnam em pacto e aliança, assim como nosso Pai Celeste administra seu relacionamento conosco, Seus filhos, Seu povo. Ainda que exista uma variedade de opiniões e interpretações sobre textos e estruturas, pertencemos ao Senhor Jesus e por isso Ele resumiu os mandamentos em dois: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo (Mt 22: 40). Amor para os que pensam diferente e pertencem ao Senhor e amor para com a verdade e com a igreja de Cristo a protegendo dos erros e heresias que a sondam. Amar não quer dizer tolerar a heresia e nem os falsos profetas.
E isso pode acontecer na prática: trabalhando em uma congregação onde a igreja-mãe tem uma persuasão dispensacional na interpretação bíblica e uma soteriologia calvinista e eu como amilenista pactual sou extremamente respeitado e amado por aqueles irmãos e obreiros assim como procuro retribuir reciprocamente com a mesma atitude, caridade e amor. Da mesma forma procedendo para com o Seminário que exerce enorme influência sobre o local.
Óbvio que a presente postagem não tem a pretensão de esgotar o assunto. E nem pode porque existem nuances que exigem uma reflexão mais apurada e complexa. Porém as experiências no campo pastoral me exigiram esse tipo de reflexão. Espero estar em um bom caminho.
Que o Senhor encha a sua igreja de amor pelo próximo e pela verdade. Que esse amor aumente em conhecimento e percepção, em nome de Jesus e para a glória de Deus.