Segunda-feira, Junho 25, 2007

089: Entrevista - Lei da Homofobia

A presente postagem foi uma entrevista concedida à um veiculo de comunicação de orientação evangélica. Faz algum tempo em que foi realizada e segue em versão aqui no blog.
1- Como tomou conhecimento de que tal projeto estaria sendo votado no senado no úlitmo dia 15/3?

Através de e-mails de irmãos na fé que estão militando na causa do Evangelho e da Palavra de Deus e de blogs que tem matérias sobre o assunto.
2- O que o motivou a escrever?
Em primeiro lugar, fui motivado a escrever por ser um cidadão brasileiro. Entendo que tenho direitos e deveres perante o Estado e me manifesto através de princípios absolutos revelados na Bíblia e que tenho como regra de fé e prática de vida. Entendi que não deveria ficar calado! Em segundo lugar, por entender que como pastor, não deveria limitar meu ensino a igreja somente, mas sim ao mundo exercendo uma função profética perante os senadores, anunciando o conselho de Deus a eles.Particularmente, fui motivado por um amigo, o irmão (....) que também escreveu um e-mail para os senadores. Quando recebi uma cópia do e-mail que ele mandou, nos encorajando a fazer o mesmo, na mesma hora "escutei" o conselho dele.

3- Enviou a carta a todos os senadores?
Enviei o e-mail para todos os e-mails de senadores que estavam disponíveis na internet.

4- Recebeu resposta de algum gabinete?
Recebi apenas do Senador (....), confirmando ter recebido o e-mail e dizendo estar atento ao assunto.

5- Conhece outras pessoas que fizeram o mesmo?
O irmão citado na pargunta 2 foi o único que me mandou o conteúdo, mas li e-mails de orgãos cristãos protestantes e católicos fazendo o mesmo tipo de protesto, fora uns dois irmãos que me disseram ter feito a mesma coisa. Soube também que os senadores receberam muitos e-mails de cristãos protestando contra a aprovação desta lei. A Diocese Anglicana do Recife e seu Bispo, Robinson Cavalcanti também escreveram um manifesto público.

6- Qual é a sua igreja?
Sou membro da equipe pastoral da Primeira Igreja Batista do Cosme Velho, Zona Sul do Rio de Janeiro, ligada a Convenção Batista Brasileira. (Na época era co-pastor nesta igreja).

7- Acredita que os senadores, a maioria homens ímpios, têm condições de avaliar as conseqüências espirituais de uma decisão favorável a esse projeto?
Em 1 Coríntios 2 versículo 14 na Palavra de Deus, o Apóstolo Paulo diz aos crentes em Corinto que " ...o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucuras; e não pode entende-las, porque elas se discernem espiritualmente", ficando claro que homens ímpios não discernem as coisas do Espírito sendo incapazes de avaliar as consequências espirituais da decisão favorável ao projeto por estarem alienados da presença de Deus (Rm 3:23), entregues a depravação da raça humana e sendo filhos da ira. Mas tem o outro lado da moeda. Deus refreia a maldade desses homens através da graça comum. Este termo é usado pelos teólogos para destacarem que até o ímpio vive pela graça de Deus. Não a graça salvadora através da fé em Cristo (Ef 2:8), mas a graça de tanto justificados quanto ímpios verem o sol nascer, respirarem o ar e etc.... Dentro da graça comum, homens e mulheres podem não professarem a fé pessoal em Jesus Cristo como suficiente salvador e Senhor, mas podem ter uma conduta de vida pautada na moral judaico-cristã, por mais que sejam pecadores afastados da presença de Deus. Além disso, Romanos 13:1-7 fala do governo civil e o versículo 4 diz que a autoridade governamental é ministro de Deus para o bem. O reformador do século XVI, João Calvino fala da magistratura civil como uma vocação sacrossanta diante de Deus. Portanto, sendo impíos ou não, as autoridades governam e lideram o Estado diante de Deus e prestará conta a Ele. O que está em jogo é a relação igreja e estado. Ambas são esferas separadas, mas permanecem debaixo da soberania de Deus. O Estado não intervem na igreja e nem a igreja manda no Estado, mas tem sua função profética de exortar o Estado diante de sua função.

8- O projeto, como deve saber, foi retirado da pauta e será criado um grupo de trabalho para melhor avaliá-lo. O senhor pretende continuar escrevendo aos senadores, principalmente os parlamentares envolvidos com o GT?

Depende do desenvolvimento do GT. Entendo que fiz minha parte e deixei meu recado, assim como outros evangélicos, mas entendo que devo continuar a protestar para que essa lei não venha ser aprovada e prejudicar o ensinamento da Palavra de Deus e a distorção dos valores cristãos da criação de Deus. Parece que no GT, o único cristão professo é o Senador Marcelo Crivela. Portanto creio que nós, evangélicos devemos continuar a protestar contra a lei ser aprovada, pois a denuncias sobre o GT pelo fato de adiarem a votação para depois aprovarem o mais rápido possível.

Segunda-feira, Junho 11, 2007

088: Princípios para relações inter-denominacionais, inter-confessionais e inter-teologais.

“(...) esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz; há somente um corpo e um Espírito como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só Fé e um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos.” Efésios 4: 3-6

“Naquilo que é essencial:Unidade ; Naquilo que não é essencial: Liberdade ; Em todas as coisas: Caridade (Amor)” Richard Baxter


Hoje me encontro numa realidade completamente diferente de onde morei por 27 anos. Há uma diferença entre pastorear numa cidade grande como o Rio de Janeiro, capital de um Estado e pastorear numa cidade rural como Itapeva de Minas, à 1 hora de meia de São Paulo, capital. Nesta cidade a população é majoritariamente católico-romana. Isso faz com que as denominações evangélicas tenham certa aproximação. Não via essa proximidade na cidade onde vivi. Dizem que no passado existia uma rivalidade entre as denominações. Membros de certa igreja não podia tomar a Ceia do Senhor na outra. Os distintivos peculiares de cada uma eram defendidos como se fossem essenciais na fé cristã e as vezes o membro de tal igreja sabia e defendia mais os distintivos peculiares do que as verdades essenciais do cristianismo básico ou podemos chamar de evangelho puro e simples. Hoje essas diferenças parecem ter sido superadas na perspectiva denominacional, embora algumas igrejas estando atrasadas mantenham essa prática. Existe competições na perspectiva empresarial que algumas igrejas (com todas as dificuldades ainda chamarei de igreja, pois por algum mistério , Deus tem seus eleitos nesses locais) mantém em seu escopo e configuração eclesial (ou empresarial). Hoje, período em que é nítido o relativismo, subjetivismo e irracionalismo como sugerem alguns estudiosos, as igrejas tem se unido mais por afinidades teológicas e doutrinárias e não por uma bandeira denominacional, sendo bom ou ruim, parece fato. Dentro disso tudo, aonde quero chegar é que me vejo num local onde tenho como responsabilidade uma congregação batista e isso implica em testemunho. Como me relacionar com aqueles que pensam diferentes e que diferenças são vitais ou não a respeito do que a Escritura revela sobre o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo? Me peguei pensando nisso porque assim que cheguei a cidade, um pastor de uma comunidade independente me procurou para estabelecer laços e freqüentar uma reunião para estabelecer estratégias para a evangelização da cidade. É óbvio que tenho um crivo teológico (e conseqüentemente bíblico) para exercer essas atividades. Mas há uma tensão entre participar e me isolar. Resolvi participar. Assim nessa reunião estavam representadas três igrejas das sete que existem na cidade (daquelas que podemos chamar de evangélicas, o que será esclarecido mais a diante). Duas das que não foram saíram como divisão de uma que estava presente e uma que não foi provavelmente foi fruto de divisão de uma que estava presente. Alguns já devem ter visto esse filme antes. Nossa igreja é o único trabalho histórico da cidade e outra denominação já tentou plantar uma igreja lá, porém sem sucesso.

Quem me conhece de perto sabe de meu carinho para com Richard Baxter. Sabe como fui impactado com a leitura do livro O Pastor Aprovado, Ed. Pes, leitura que procuro repetir sempre quando oportuno. Baxter lutava contra o denominacionalismo, ou seja, a atitude sectária de cada denominação. Não estou colocando que não devemos amar nossas denominações. Eu, por exemplo, amo minha denominação Batista, Cristo me converteu nela, compreendo um dos seus distintivos particulares como Bíblico (confesso que não vejo o congregacionalismo como explicitamente bíblico, embora um sistema que tenha suas vantagens e desvantagens também. Vejo como bíblico a pluralidade de presbíteros na igreja local, mas esse é um outro assunto). Mesmo amando minha denominação, compreendo não sermos donos da verdade (e sim servos dela) e que devemos nos relacionar com outros irmãos em Cristo. A questão é quem é nosso irmão em Cristo? E até onde nos relacionar devido às diferenças?

Sabemos que a Igreja de Jesus Cristo é una por toda à parte da terra em todos os momentos da história até a consumação dela. Cristo orou em João 17 por todos aqueles que haveriam de crer em sua Palavra. A questão é que tem grupos que se afastam e distorcem a Palavra de Deus. Esses, o teólogo Wayne Grudem chama de igreja-falsa em sua teologia sistemática. A Segunda Confissão de Fé Londrina de 1689, batista, no seu capítulo sobre eclesiologia, diz que existem igrejas que se corrompem e se degeneram a tal ponto que acabam se tornando sinagogas de Satanás. Aqueles que permanecem na verdade, Grudem os chama igreja verdadeira. Dentro da igreja verdadeira, existem as igrejas-puras e as igrejas menos puras.

Essas classificações serão feitas aqui na postagem de acordo com o princípio da frase atribuída a Richard Baxter citada acima:

“Naquilo que é essencial: Unidade”

Precisamos aqui definir o que é essencial para a fé cristã. E nesse essencial estar toda a unidade da Igreja do Senhor Jesus espalhada por todo canto na face da terra, em todos os tempos. Podemos levar em conta a classificação de Agostinho de igreja visível (o corpo presente em instituição) e invisível (aqueles que Deus sabe que pertencem a Ele). Mas como classificar o meio de entrada para a igreja visível. Lógico que não posso e nem ninguém se colocar no lugar de julgar mas há autores e a própria revelação bíblica esclarece essa questão. A Bíblia Sagrada deixa claro que em nenhum outro nome há salvação (Atos 4:12). Quem crê no Senhor Jesus Cristo será Salvo (Atos 16:31 ; Romanos 10:9). Ele (Cristo) morreu por pecadores (Marcos 10:45), para expiar a culpa do pecado (Romanos 3:25). Aqui está um ponto central no cristianismo, Jesus morreu por pecadores para salva-los de sua condição de maldito (Gl 3:10), só Jesus salva. Esse Jesus que morreu por pecadores não era um homem comum, mas sim Deus encarnado na humanidade (Fl 2:5-11). Temos então um ponto: Jesus Cristo é Deus e morreu pelos nossos pecados. Dentro da reflexão sobre a divindade de Cristo podemos colocar então, seu nascimento virginal, sua morte, sua ressurreição (Pilar da nossa fé – 1 Co 15), sua ascensão e sua volta física e pessoal. Outro ponto seria que esse Jesus de quem falamos é a revelação do Pai. E o seu nascimento virginal foi obra do Espírito Santo, uma terceira pessoa. Outro ponto então seria a tri-unidade de Deus, ou a doutrina da trindade. Podemos acrescentar também a misteriosa união das duas naturezas de Cristo (Deus-homem). Embora muitos crentes não meditem nisso (e realmente é um mistério) , faz parte da ortodoxia (verdade) cristã. Então somos salvos para a vida eterna, habitação com o Senhor por toda a eternidade e ressucitaremos quando Jesus Cristo voltar em glória e majestade.

O gnosticismo tinha a prática de distorcer as Escrituras, principalmente em pontos como a divindade de Cristo e sua humanidade. Assim, os cristãos ao longo da história escreveram credos para afirmarem e confirmarem sua fé e usarem os mesmos como critério hermenêutico (método de interpretação bíblica) para entenderem as Escrituras. Então podemos citar um deles, o Credo Apostólico.


“Creio em Deus, o Pai onipotente, Criador do céu e da terra.

E em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, o qual foi concebido do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu aos infernos, no terceiro dia ressucitou dos mortos, subiu aos céus, está sentado à destra de Deus, o Pai onipotente, donde há de vir para julgar os vivos e os mortos.

Creio no Espírito Santo, a santa igreja católica (universal) [cristã] , a comunhão dos santos, a remissão dos pecados, a ressurreição da carne e a vida eterna. Amém.”

Tirando o ponto “desceu aos infernos” que é baseado numa interpretação de um texto de 1 Pe, todo cristão tem de crer no que está afirmado ali. Toda afirmação deste credo, exceto a citada, tem base bíblica e é central na fé cristã. Esse foi o primeiro credo a ser registrado pela tradição da igreja e não tem como ser cristão negando os pontos presentes neste credo.

É claro que as heresias sempre existiram na igreja, sempre voltando com roupas novas. Com o advento do liberalismo teológico, fruto do movimento iluminista que trocou Deus pela razão, a Bíblia foi colocada em cheque com pressupostos crítico-históricos de interpretação oriundos de uma cosmovisão naturalista. Então em 1910 surgiu um movimento nos Estados Unidos chamado fundamentalismo, que originalmente militava pelo retorno aos fundamentos da fé cristã, alicerçados na inerrância e infalibilidade das Escrituras, inspiradas por Deus e a divindade de Jesus Cristo.

Não entrarei no mérito se os neo-ortodoxos (movimento que tentou caminhar com a ortodoxia e liberalismo, em seu criticismo bíblico de mãos dadas) que negam a inerrância são genuinamente convertidos (não posso julgar, sou ciente disso), mas há uma dificuldade pessoal em estender a destra da comunhão com quem não crê em inerrância das Escrituras.

Pode-se arriscar em dizer que todos que crêem nestes pontos devem ter comunhão e diálogo e pertencem a família de Deus:

Existência de um único Deus.
Tri-unidade desse Deus (trindade).
Jesus Cristo, Deus encarnado (União das duas naturezas). Nascimento virginal e milagres.
Jesus Cristo como único caminho para a salvação do pecado pela fé Nele, em sua morte e ressurreição.
Volta literal de Jesus Cristo
Ressurreição dos mortos: juízo eterno para os incrédulos e vida eterna para os que creram.
Crença nas Escrituras como revelação sem erros e regra de fé e prática.

Sei do risco que corro aqui. A discussão é no campo da ortodoxia e ninguém é salvo por exatidão teológica. Acredito também que existem irmãos e irmãs excelentes em piedade mas com pouca capacidade cognitiva e de concatenar idéias, portanto experimentam (dimensão subjetiva da fé) a salvação mas podem não saber conceituar algumas coisas. Porém o que é certeza é que foram salvas por Cristo e essa salvação é ligada aos pontos descritos acima, como revelados biblicamente. Também podem ter aqueles que professam essa crença mas não são nascido de novo.

Então toda denominação que professa essa fé (claro que há níveis de prática e coerência com essa fé) pode ser chamada de Igreja Evangélica, porque crê no verdadeiro evangelho de Cristo revelado nas Escrituras Sagradas. Então evangélicos histórico-tradicionais, pentecostais, carismáticos podem ter um certo diálogo fraternal em comunhão pela fé comum no cristianismo puro e simples e buscarem aprender uns com os outros e divulgarem a salvação na pessoa bendita do Senhor Jesus.


“Naquilo que não é essencial: Liberdade”

Vimos no primeiro princípio extraído da máxima baxteriana que há uma definição do que é ser evangélico e do que essencial para a fé cristã. Agora veremos as nuances não-essenciais. Imaginemos um avião sobrevoando uma cidade chamada “Evangélica”. Foi onde sobrevoamos na reflexão acima. Imaginemos esse avião descendo a cidade “Evangélica” e sobrevoando as ruas principais e travessas. Isso que veremos aqui. Dentro das crenças que podemos chamar evangélicas, existem uma variedade de interpretações acerca de textos e práticas das Escrituras. Os presbiterianos e batistas são em origem calvinistas e os metodistas e nazarenos arminianos na soteriologia (doutrina da salvação), mas tem em comum a fé em Cristo como salvador. Mas entre presbiterianos e batistas há divergência quanto a idade para o batismo (pedo-batismo ou batismos de adultos) e quanto ao método (aspersão ou imersão) mas tem em comum a crença na doutrina da justificação pela fé em Cristo. Dispensacionalistas ou aliancistas-pactuais crêem de maneira diferente na forma como Deus administra seu relacionamento redentor para com a humanidade na história. Mas ambos crêem na volta de Cristo e na autoridade das Escrituras Sagradas. Pré-milenistas, a e pós também crêem ambos na volta do Senhor Jesus de maneira física e pessoal. A diferença está na compreensão de como isso vai acontecer. Evangélicos históricos-tradicionais crêem que os dons extraordinários cessaram ou existem mas não são evidências de um batismo no Espírito após a conversão, algo já tido como evidência de maturidade espiritual nos grupos de persuasão pentecostal. Entre os evangélicos históricos a questão da cessação dos dons extraordinários não tem uma posição unânime, alguns crêem que cessaram, outros que continuam. Ainda entre os evangélicos históricos (batistas, presbiterianos, luteranos, metodistas, anglicanos, congregacionais, etc...) existem aqueles que crêem num segundo batismo no Espírito. Por mais que se tenha as devidas crenças e interpretações das Escrituras e as aceitemos como revelação de Deus, deve-se ter tolerância e diálogo relacional com aquilo que não é essencial para a salvação do ser em Cristo Jesus e com aqueles que professam a fé no único e suficiente salvador. Isso implica em liberdade.

Lógico que se deve ter uma escala para esses relacionamentos: Por exemplo, o editor desse blog crê na teologia reformada como interpretação das Escrituras, ou seja, as doutrinas da graça em seus cinco pontos, a suficiência das Escrituras, a doutrina do pacto e da aliança, escatologia a-milenista (ou como sugere A. Hoekema, milênio realizado). E como pastor batista, eclesiologia regida por uma pluralidade de presbíteros e batismo por imersão. Portanto, o relacionamento ficará mais fácil em escala com aqueles que se aproximam das mesmas interpretações e aceitações de pontos em comum nas Escrituras, ex: relacionamento fácil e admiração com os presbiterianos pela crença em comum nas doutrinas da graça e na justificação pela fé. Também com pentecostais que tem se aproximado dessas percepções (esse é um fenômeno no evangelicalismo: pentecostais se aproximando da fé reformada , ou mesmo a aderindo). Fica assim a preferência para relacionamentos: Igrejas que adotam as confissões reformadas e os catecismos como símbolo de fé – Confissão de Fé e Catecismos Maior e Menor de Westminster ; Confissão Belga, Catecismo de Heildeberg e Cânones de Dort ; Segunda Confissão de Fé Londrina de 1689 (Batista) ; Declaração de Savoy (Congregacional) ; 39 artigos da religião (Anglicana) e em alguns pontos, Confissão de Fé de Augsburgo (Luteranos) e claro, todos os pentecostais-carismáticos que tem abraçado a cosmovisão reformada. Com esses há uma familiaridade maior para o autor deste texto.

Como pastor batista dentro de uma denominação cuja declaração doutrinária abrange várias correntes teológicas e se afirma no que é essencial na fé, há uma disposição para a tolerância com arminianos, carismáticos e dispensacionalistas por ex. Essa Tolerância não significa chamar alguém influenciado pelo pelagianismo (doutrina que ensina que o indivíduo nasce moralmente neutro e se enclina para o mal a medida em que vive e nega a doutrina bíblica e calvinista da depravação total) ou pela metodologia pragmática praticada por Charles Finney (por mais que fosse um homem crente, sua teologia era controversa e anti-bíblica em alguns pontos) para pregar e/ou ensinar em minha igreja, ou seja, não permitiria um pelagiano no púlpito da igreja onde pastoreio. Tolerância não quer dizer concordar, mas respeitar a liberdade dentro do que significa ser cristão e evangélico no ambiente democrático em nosso país e constituição. Liberdade no que não-é-essencial para a salvação da alma não quer dizer concordar e aceitar para si, mas sim em respeitar e amar, o que veremos no próximo ponto.

“Em todas as coisas: Caridade (Amor)”

As definições de amor nas Escrituras encontram-se em João 3:16 e 1 Co 13. O amor é uma ação em favor do próximo aonde é exigida a doação de si próprio. “O amor é mais atitude do que sentimento” John Stott. O amor bíblico não é mera contemplação platônica e sim uma ação prática denominada caridade. Essa caridade é o fio condutor para o relacionamento entre irmãos em Cristo. Esse amor faz com que todos aqueles que estão em Cristo se reúnam em pacto e aliança, assim como nosso Pai Celeste administra seu relacionamento conosco, Seus filhos, Seu povo. Ainda que exista uma variedade de opiniões e interpretações sobre textos e estruturas, pertencemos ao Senhor Jesus e por isso Ele resumiu os mandamentos em dois: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo (Mt 22: 40). Amor para os que pensam diferente e pertencem ao Senhor e amor para com a verdade e com a igreja de Cristo a protegendo dos erros e heresias que a sondam. Amar não quer dizer tolerar a heresia e nem os falsos profetas.

E isso pode acontecer na prática: trabalhando em uma congregação onde a igreja-mãe tem uma persuasão dispensacional na interpretação bíblica e uma soteriologia calvinista e eu como amilenista pactual sou extremamente respeitado e amado por aqueles irmãos e obreiros assim como procuro retribuir reciprocamente com a mesma atitude, caridade e amor. Da mesma forma procedendo para com o Seminário que exerce enorme influência sobre o local.

Óbvio que a presente postagem não tem a pretensão de esgotar o assunto. E nem pode porque existem nuances que exigem uma reflexão mais apurada e complexa. Porém as experiências no campo pastoral me exigiram esse tipo de reflexão. Espero estar em um bom caminho.

Que o Senhor encha a sua igreja de amor pelo próximo e pela verdade. Que esse amor aumente em conhecimento e percepção, em nome de Jesus e para a glória de Deus.

Sábado, Junho 02, 2007

087: Discipulado - A paixão por influenciar vidas!

“Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;” Mateus 20:19

“e o que de mim ouviste de muitas testemunhas, transmite-o a homens fiéis, que sejam idôneos para também ensinarem os outros.” 2 Timóteo 2:2


Vários crentes em algum momento de sua caminhada com Cristo já ouviu falar do termo discipulado. Muitos livros já foram escritos sobre o assunto de uma perspectiva ou de outra. Mas afinal o que é discipulado? Como ser um discípulo de Cristo? Como discipular outros? Não há pretensão de originalidade na postagem. Espero apenas arriscar alguns palpites sobre o termo em seu uso bíblico, algumas literaturas e o uso prático desse conceito dentro da Igreja de Cristo.

Biblicamente, Discípulo vem do grego Matetes que quer dizer aprendiz, aquele que aprende de seu mestre. Era um método comum na Palestina entre os judeus. Foi usado nas Escrituras, particularmente no Novo Testamento , mais ou menos, 230 vezes. Nosso Senhor Jesus Cristo fez muitos discípulos, caminhou estreitamente com doze e se aproximou mais de Pedro, Tiago e João. A caminhada com os doze, é bem escrita pelo autor A.B Bruce no clássico, Treinamento dos Doze como um modelo e princípios para a liderança e discipulado. É bem verdade que discordo do autor na sua compreensão da economia da redenção (particular ou universal) mas ainda assim indico o texto pela sua excelente perspicácia exegética (Bruce foi professor de NT na Escócia) e análise dos textos em que o Senhor Jesus Cristo está formando os seus doze discípulos.

1 - É nítido e notório nas Escrituras que o Senhor Jesus formou os doze em seu caráter, os ensinando a obedecer os mandamentos do Pai e a guarda-los em seu coração. Os ensinou a carregarem a sua cruz e o seguirem, deixando tudo para trás. Os ensinou a serem humildes e não buscarem glória para si mesmo. Os ensinou a serem mansos e pacientes, confiando totalmente na justiça divina. Os ensinou na prática a amar ao próximo como a si mesmo e a fazer o bem. Portanto, em seu ministério de três anos, Jesus Cristo moldou, formou e aperfeiçoou o caráter e a vida de seus discípulos.

2 - Também pode-se perceber que o Senhor Jesus os formou teologicamente. O discipulado de Cristo com seus seguidores teve a sua ênfase no caráter e na prática de vida, mas também os aperfeiçoou no entendimento da verdade. Certa vez ouvi um sermão de alguém dizendo que o cristianismo é fundamentado na revelação. Claro que o pregador estava correto! Deus se revela aos seres humanos através de Sua graça. Cristo é a própria revelação encarnada. A divindade veio ao tempo e ao espaço em forma de homem para morrer e padecer pelos nossos pecados. Jesus Cristo ensinou a verdade a seus discípulos (Jo 14:6). A igreja foi fundamentada nos ensinamentos de Cristo para os apóstolos. Esses ensinamentos são verdades teológicas imutáveis e eternas. Esses ensinamentos são doutrinas, as quais, Nosso Senhor passou para os doze para depois, ensinarem a outros.


No primeiro versículo citado acima, o Senhor ordena os doze a irem fazendo (assim traduz melhor a expressão no grego) discípulos em todas as nações os batizando em nome da Trindade. Agora chegou a hora Dele partir em sua ascensão ao céu. Houve o período em que os discípulos voltaram as suas atividades, mas logo houve o pentecostes e assim voltaram a suas atividades de ensino, pregação e as atividades apostólicas. Chegou a vez dos discípulos (agora apóstolos, enviados de Cristo) formarem outros. Percebemos a influência de Pedro na vida de João Marcos, que escreveu o evangelho de Marcos. João influenciou a vida do mártir Policarpo, que por sua vez influenciou Irineu, segundo a tradição da Igreja. E assim sucessivamente até os dias de hoje.

O apóstolo Paulo também foi um excelente discipulador! Nas páginas de suas cartas, vemos como ele era zeloso com suas igrejas e aqueles os quais ele havia discipulado. Em sua escola incluía o médico Lucas, Silas, Demas, Timóteo, Tito e outros. Assim como Jesus viu em Judas, o filho da perdição, Paulo sentiu o gostinho amargo da traição em Demas. Quem trabalha vidas e nunca passou por isso? No segundo versículo citado cima, o Apóstolo Paulo orienta ao jovem presbítero Timóteo, servindo a Igreja de Cristo em Efeso, a passar o que tinha ouvido e testemunhado para outros homens, a fim de prepara-los para ensinarem a outros. O discipulador forma discípulos em Cristo para assim influenciarem outros.

Ainda que o termo discípulo só esteja cunhado no Novo Testamento, o Antigo Testamento também está recheado de exemplos de discipulado. O primeiro testamento tem como fio condutor a doutrina da aliança. Deus administra um pacto soberanamente com seu povo escolhido. Deus faz uma aliança com Seu povo. Essa aliança (Adão, Noé, Abraão, Moisés, Davi – Cristo, cumprimento da promessa – Nova aliança) tem seus desdobramentos culturais e sociais, como por ex. a formação de uma família como plano de Deus. Assim, a amizade de Jonatas com Davi é um belo exemplo do desdobramento relacional que a aliança trás ao coração daquele que creu na promessa dentro da estrutura do pacto no Antigo Testamento. Sendo assim, Moisés influenciou a vida e a formação de Josué para que este continuasse a mediar a aliança. Samuel treinou Davi para o reinado em Israel. O profeta Elias formou o profeta Eliseu que assim formou outros.

Podemos ver também a formação no discipulado entre as mulheres nas Escrituras (espero que nenhum leitor imagine que estou defendendo a ordenação de mulheres ao presbitério. Até porque sou contra, levanto a bandeira do que a Bíblia diz na denominação que pertenço e escrevi um artigo neste blog que foi um trabalho digitado em período de estudos no seminário me posicionando ao lado da Bíblia, ou seja, contra a ordenação de mulheres). O discipulado não está restrito ao presbitério mas é extenso a todo aquele nascido de novo para que forme outros. Assim, as mulheres mais maduras devem auxiliar as mais novas (não aos homens) a crescerem na graça e no conhecimento de Jesus Cristo. Vemos como Noemi formou Rute e como as mulheres no novo testamento cuidavam de outras. Diz a tradição que Maria, mãe do Senhor cuidou de mulheres na igreja em Eféso até seu falecimento junto com o Apóstolo João.

Na história do cristianismo temos exemplos de vidas que foram influência na formação cristã de outras. Na era pós-apostólica , Policarpo o mártir foi influência na vida do teólogo Irineu como já escrevi acima e ambos foram influenciados pelo Apóstolo João. Podemos perceber que a influência em outros devem ser passada para outros mais. Ambrósio influenciou a vida de Agostinho em sua conversão e chamado ao ministério da Palavra. Na reforma, o célebre João Calvino chamava Farel de seu pai no Senhor. Na modernidade, J. Gresham Machen, o defensor da fé cristã frente ao liberalismo teológico foi influenciado por Francis Patton a quem dava o título de pai espiritual. Com a fundação do seminário teológico de Westminster, Machen pode ser influência na vida de Francis Schaeffer, que mais tarde veio a ser um forte defensor da fé.

Mas ninguém na história da igreja, pelo menos que se tenha conhecimento de registro, foi tão marcado pelo discipulado como o puritano Richard Baxter. Este foi pastor na paróquia anglicana em Kidderminster, na Inglaterra do século XVII, sendo um não-conformista, o que o levou a prisão e perseguição em ocasiões. O que marcou o pastorado de Baxter, além dos seus inúmeros escritos, foi o seu método de trabalho, a catequese pessoal com cada família e membro de sua igreja por meio de perguntas e respostas instruindo-os nos conceitos fundamentais da fé cristã. Baxter discipulava, por instrução pessoal, cada crente em sua igreja! E houve um avivamento espiritual em que a aldeia mais ou menos de 2000 pessoas foi quase totalmente ganha para Cristo e houve ruas em que todos foram convertidos e iam para a igreja felizes e alegres cantando hinos louvando a Deus. É um grande herói pessoal, mesmo que tenha tido problemas com a doutrina da expiação limitada.

Baxter compartilhou essas experiências com outros pastores não conformistas que numa reunião se arrependeram de sua negligência para com o povo de Deus e então foi escrito o livro Pastor Aprovado, publicado em português pela editora PES, sendo o livro que marcou minha vida nos estudos em seminário teológico (mesmo com tanto liberalismo e ensino inútil, Deus teve misericórdia e me guardou em fé) amadurecendo o conceito do ministério pastoral. Fiquei tão fascinado pelo assunto que fiz minha monografia em cima do uso dos catecismos. Ela está no site do Monergismo e há um link para ela neste blog.

Outras obras ao longo dos anos foram escritas sobre o assunto. O teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer escreveu Discipulado, sendo o título original O preço do discipulado. Bonhoeffer foi um resistente do Nazismo na Segunda guerra mundial sendo preso por dois anos e depois executado pela polícia alemã. Este livro escrito em início de carreira trabalha o discipulado numa perspectiva individual de seguimento de Cristo ainda que se perca a vida. Mesmo assim, Bonhoeffer discipulou seminaristas da Igreja Confessante resistente ao sistema nazista e registrou isso no livreto Vida em Comunhão. Infelizmente, Bonhoeffer seguiu uma orientação neo-ortodoxa em sua teologia (e na prisão migrou para o liberalismo). Mesmo assim essas duas literaturas tem um excelente valor.

O pastor e evangelista argentino Juan Ortiz escreveu O Discípulo publicado pela Editora Betânia. Nesse texto, Ortiz trabalha a questão do amor entre os discípulos de Cristo. Tem alguns conceitos e práticas interessantes além de experiências do autor, mas infelizmente está oferececida no texto uma perspectiva ecumênica de diálogo com católicos e os argumentos são baseados na fragmentação denominacional evangélica. Por mais que seja um ponto negativo para nós, não se deve negligenciar aspectos da ortodoxia cristã e princípios fundamentais da fé como por exemplo o Senhorio de Cristo na salvação do pecador.

Howard Hendricks, professor aposentado do Seminário Teológico de Dallas, tem sido um grande mestre na área de escrever na área de influência de vidas. Em português podemos ler: Ensinando para transformar vidas e Aprendendo a mentorear, ambos publicados pela editora Betânia e Como o ferro afia o ferro da Shedd Publicações. Neste ultimo , Hendricks coloca níveis de discipulado, como por exemplo, do mais experiente para o menos, como os exemplos acima nesta postagem e também o discipulado lado-a-lado de pessoas que se ajudam com o mesmo nível de maturidade como por exemplo, Pedro, Tiago e João ; Paulo e Barnabé ; Lutero e Melanchton, etc..

Porém Hendricks separa o conceito de discipulado (temporário) e mentoria (toda uma vida). Ainda que seja interessante a tipologia e conceituação de Hendricks, não sabemos como esses termos se relacionam de maneira intercambiáveis ou se não são sinônimos. Eu pelo menos tenho essa dúvida, mas o que é certeza é que não se excluem mutuamente.

No Brasil, os dispensacionalistas estão a todo vapor com essa prática. O Seminário Bíblico Palavra da Vida tem o discipulado não como um conceito mas um estilo de vida em que os alunos são formados não só academicamente, mas também com vistas a servir na igreja influenciando outros para que vidas sejam transformadas.

Os irmãos Menonitas parecem ter essa pratica pela ênfase da comunhão e da vida em comunidade por causa da teologia anabatista. Entendo ser essa uma contribuição desse grupo para o movimento evangélico.

Nas denominações confessionais e adeptos da teologia reformada, há uma grande ênfase na pregação fiel e expositiva da palavra de Deus e essa ênfase é correta segundo a própria Escritura. Mas precisamos resgatar em nosso meio o ministério catequético proposto por Baxter e assim pastorear e discipular um por um para também prepararem outros. Uma excelente prática dos reformados é influenciar vidas por meios de textos produzidos e relfexões. A reflexão nos conduz ao amadurecimento como discípulos de Cristo. Eu mesmo tenho crescido e muito com textos lidos em periódicos e blogs (estes a um ano e meio mais ou menos).

Já li e ouvi adeptos de modelos eclesiológicos dizerem que é impossível praticar o que Richard Baxter propõe em O Pastor Aprovado. Isso se deve ao fato de pastores serem isolados de suas ovelhas limitando o ministério apenas no púlpito. Se a igreja está crescendo, que se aumente os obreiros, propõe Baxter, para que cada um seja discipulado, pastoreado e alimentado.

Os modelos pragmáticos jamais ouvirão Baxter. Porque o discipulado fará a igreja crescer em pureza doutrinária e de vida de cada um, onde a disciplina não será negligenciada, mas bom, isso é um outro assunto.

Discipulado implica em relacionamento, amor ao próximo, comunhão e ensino das verdades reveladas por Deus nas Escrituras. Que Deus reavive sua igreja no Brasil através de crentes maduros levando outros a maturidade em Cristo, Pastores nutrindo o seu rebanho com uma dieta espiritualmente salutar e professores de teologia e de seminários ensinando verdades bíblicas para impactarem seus alunos para que outros sejam impactados por estes (este também é um outro assunto). Que delícia ver alguém ser ganho para Cristo e crescer na graça, na maturidade, no conhecimento, no entendimento e no esclarecimento de Cristo Jesus , Nosso Senhor! Discipulem e amem trabalhar e influenciar vidas. O discipulado é um chamado para a igreja! É clara minha intenção na postagem de incentivar a crentes a trabalharem as vidas na igreja e se engajarem no discipulado.

Dedico está postagem a Marco Antônio que me segurou pelas mãos e me levou a conhecer melhor meu Senhor e Salvador Jesus Cristo.

Dedico também está postagem aos membros e congregandos da Igreja (Congregação) Batista em Itapeva de Minas, onde tenho o privilégio e a honra de servi-los como Pastor , ajudando-os a amadurecerem com Cristo.