Quarta-feira, Abril 26, 2006

Pode um batista ser reformado?

Tenho escutado e lido em conversas informais e tópicos de discussão sobre a possibilidade ou não de um membro ou comungante de uma igreja batista aderir a fé reformada como expressão cristã e sistema confessado, ou seja, tenho sido questionado e vendo questionamentos se um batista pode de fato ser e ser chamado de reformado. Para se trabalhar com a pergunta é necessario definir os conceitos, ainda que de maneira introdutória e superficial:

O que é ser um batista? Entender os distintivos batistas expressos nas Sagradas Escríturas, como batismo por imersão de adultos, após profissão de fé pública e governo congregacionalista (presbiteral de acordo com a origem histórica dos batistas).

O que é ser reformado? Crer nos pilares da reforma (Sola Scriptura, Gratia, Fide, Solus Christus e Soli Deo Gloria - em port. somente as Escríturas, graça, fé, Cristo e a Deus toda glória) e ser calvinista é crer nas doutrinas da graça defendidas no sinodo de dort (1619) como sendo bíblicas. (Pode-se acrescentar a teologia pactual também)

Então qual contraste? Nenhum.

O questionamento é que os batistas não batizam crianças e em maioria (não todos) ficam com o batismo e ceia como memorial (posição de Zwinglio, que era reformado). Mas dizem por não crer em "todo sistema" não podem ser chamados de reformados ou calvinistas. Não ser chamado de calvinista no sentido strictu sensu (ipsis literis) ainda vai, porque lógico que os batistas tem discordância de pontos das Institutas como pedo-batismo e alguns pontos do governo de igreja. Mas vem cá, seria isso central no calvinsmo como sistema? Não seria a soberania de Deus, a revelação , a graça , a total depravação pontos centrais no calvinismo? Se um batista compactuar com essas crenças, não pode ser chamado de calvinista?

A reforma religiosa do séc XVI teve sua extensão na inglaterra, qual teve origem o movimento puritano que militava por uma igreja mais bíblica em seu culto e doutrina, distante dos rituais papistas, qual surgiram as igrejas presbiterianas, congregacionais e batistas, ou seja, a origem dos batistas (particulares, calvinistas na soteriologia) em 1639 se deu como continuidade do movimento separatista dentro da igreja da Inglaterra e não como continuidade da reforma radical como advogam alguns, fazendo com que questionamentos como o do titulo da postagem surja. Os batistas gerais nascidos em 1612 com John Smyth e Thomas Helwis foram extintos porque J. Smyth virou menonita levando parte de sua congregação, sendo o restante disperso. Então concluímos aqui a origem calvinista da igreja batista, podendo ser encontrada em literaturas de história dos batistas.

Homens de Deus na história da igreja como na modernidade defenderam os princípios da reforma veemente como John Gill, John Bunyan (peregrino) que aliás subentendi no livro do Lloyd-Jones (Os Puritanos: suas origens e seus sucessores, ed. Pes) que Bunyan acreditava na dispensação da graça na ceia e batismo dando carater sacramental aos mesmos, Charles Spurgeon (que diga-se de passagem foi um baita de um defensor da fé reformada, é só ler "O Spurgeon que foi esquecido" de Iain Murray, pr. assistente de Lloyd-Jones na capela de Westminster e prefaciado por um presbiteriano, Rev. Augustus, ed. Pes) que escreveu "Eleição" ed. Fiel e "Uma defesa de verdades chamadas calvinistas" ed. Pes, John Dagg, John Piper, Wayne Grudem, Albert Mohler, Tom Ascol, Mark Dever, Errol Hulse e tantos outros americanos e britânicos .....não podem ser chamados de reformados?

Aqui no Brasil, homens como Russell Shedd, Alan Myatt, Andrew King, Gilson Santos, Franklin Ferreira como tantos outros tem militado por uma fé bíblica entendendo os postulados da reforma como tal e buscando aplica-los em nosso contexto brasileiro, creio também serem reformados.

Hoje existem diversas igrejas batistas reformadas no estatuto em vários estados no Brasil e igrejas batistas convencionais que creem nas doutrinas da graça e no escopo reformado. Existe até uma organização de comunhão não-convencional para agrupar batistas convictos da fé reformada : CRBB - Comunhão Reformada Batista do Brasil e a anos a editora Fiel, dirigida por batistas reformados tem feito conferências anuais de jovens e também para pastores e líderes.

Concluo então entendendo que um batista pode ser reformado. Para maiores informações indico a leitura "Os batistas e a doutrina da eleição" Robert Selph , ed. Fiel. Tal autor será o preletor do 3o congresso da CRBB, mais info no link da tal aqui no blog.

Numa era pós-denominacional e uma ênfase mais no segmento teológico, oro a Deus para que dê forças aos batistas reformados sustentando sua militancia na fé dentro das instituições batistas e agradeço a comunhão que tenho com irmãos e irmãs em Cristo de persuasão reformada comungantes em outras denominações cuja convivência seja pessoal ou virtual muito tem me abençoado.

A Deus toda honra e toda glória para sempre!

Segunda-feira, Abril 24, 2006

Esboço do sermão da sexagésima

VIEIRA, Pe. Antonio. Sermão da sexagésima. Edição de base: Sermões escolhidos, vol. 2, Edameris, são Paulo, 1965.

Sermão pregado na capela real de 1655.

Semente do verbo divino, S. Lucas, 8:1.

Na primeira parte, Vieira explica seu entendimento sobre a semente de trigo semeada aos corações das criaturas racionais que conseguem ter entendimento para compreender a proposta da tal semente. Na segunda, a semente é apresentada como a palavra de Deus sendo Cristo, na terceira mostra a dinâmica de três princípios de onde procedem os frutos, da parte do pregador, do ouvinte e da própria graça de Deus, fazendo uma analogia com os olhos, espelho e luz entrando mais propriamente dito na explicação da passagem terminado dizendo que as pedras e espinhos clamarão pela falta de frutos da pregação e do pregador. Na quarta faz uma explicação cristológica da semente divina e na quinta uma comparação entre a pregação artística e a pregação natural, qual Vieira milita contra os estilos modernos de pregação, sendo o estilo mais antigo o céu. O pregador moderno tem muitas matérias mas o semeador somente uma, o evangelho revelado na Bíblia sagrada. Na sétima, Vieira cita a analogia bíblica do pregador e semeador ao pescador de almas, como os apóstolos e coloca o semeador a frente de uma batalha espiritual. Na nona parte é desencadeado os poderes que a pregação da Palavra manifesta na dinâmica do Espírito Santo e faz um contraste com pregadores de Portugal que usavam alegorias para prender o auditório. Interessante a anedota no ultima parte que conta uma história de dois pregadores em Coimbra, um homem que assistiu os dois disse o seguinte, com o primeiro eu saia mais contente com o pregador, o segundo eu saia mais descontente comigo mesmo.
Embora Vieira seja um padre católico, a teologia exposta nesse sermão muito se assemelha, se não, é a mesma linha que a teologia protestante do século XVI, firmada nas Escrituras em sua centralidade, suficiência e autoridade debaixo da estrutura trinitariana e encarnacional cristologicamente. Há muita semelhança de sua teologia da pregação para a forma como Charles Spurgeon, o príncipe dos pregadores batista, colocava sua teologia da pregação, fazendo com que o sermão da sexagésima seja um instrumento de confronto e preparo para o vocacionado ao ministério de semeador do trigo divino.

Terça-feira, Abril 11, 2006

Teologia do Culto

Aluno: Juan de Paula Santos Siqueira – Teologia, 7º período.
Disciplina: Culto Cristão I Prof.a : Westh Ney

COSTA, Hermisten Maia Pereira. Teologia do culto: considerações bíblica-histórica-teológica da liturgia cristã. São Paulo – SP: Casa Editora Presbiteriana, 1987, 62p.


“ O culto cristão é o ato mais importante, mais relevante, mais glorioso na vida do homem.” Karl Barth


O IMPERATIVO DA ADORAÇÃO – A antropologia, sociologia, filosofia, a arqueologia e a história evidenciam que a religião está presente em todas as culturas antigas afirmando o ser humano como ser religioso: truísmo.

Para muitos pensadores a religião é destituída de qualquer elemento objetivo.

A adoração é imperativa do mesmo modo que a religião é própria do homem.

O CULTO CRISTÃO COMO ATITUDE RESPONSIVA – A adoração correta é uma atitude de fé e obediência qual o adorador se prosta diante de Deus.

O culto é a expressão da alma que conhece a Deus e deseja manter um diálogo com Ele.

LITURGIA: ORIGEM E EVOLUÇÃO DO TERMO – No grego clássico quer dizer serviço, prestado voluntariamente a pátria , posteriormente tomou conotação artística. Após tomou significado religioso e jurídico.

Septuaginta: 19 vezes NT: 6 vezes.

O que é liturgia?
R: Roteiro de culto (popular-simplista) ; Serviço religioso de adoração a Deus (bíblico-teológica).

ADORAÇÃO NA SINAGOGA E O CULTO CRISTÃO – Nas sinagogas citavam responsivamente o Shemá, cântico dos Salmos e leituras da tora e do AT. Culto cristão aos moldes de Atos 2:42

PERÍODO PÓS-APÓSTÓLICO – Séc II e III, ambiente carregado por religiões de mistério, séc. IV e V, ofícios divididos em 2 partes, 1 – catecúmenos e ao público em geral, 2 – somente os batizados, para contemplarem o mistério cristão tendo como ápice a ceia do Senhor.

IGREJA CRISTÃ COMO COMUNIDADE LITURGICA – 1) Adora ao Senhor em tudo que faz , para glória do Deus triúno ; 2) É vocacionada a prestar culto ; 3) Adora ao Senhor pelo que ele é.

ELEMENTOS DA LITURGIA BÍBLICA – Oração, louvor, instrução, eucaristia.

CULTO CRISTÃO – Contemplação, serviço, profissão de fé, individualizante, comunitário, escatológico (ato histórico refletindo uma realidade eterna).



A postagem é um esboço do seminário apresentado por mim no dia 12/04 para a disciplina Culto Cristão I.

Quarta-feira, Abril 05, 2006

Por uma pedagogia cristã: João Amós Comenius e a Didatica Magna

Muito tem se discutido a função da educação na igreja e também o papel da educação no Brasil e o envolvimento cristão. Muitos jovens evangélicos vão para a universidade estudar pedagogia ou ciências da educação e se deparam com teóricos cujo fundamentos naturalistas e deístas apelam para a cosmovisão do homem moderno (o mundo fechado ao transcedente guiado pela dinâmica da causa e efeito) e que vão contra algumas doutrinas da fé cristã.


Numa época em que o movimento evangélico carece de identidade, irmãos na fé vão estudar nas universidades e acabam levando esses teóricos para dentro da igreja sem sequer notar a contradição entre os fundamentos e os pressupostos, ou se notam, permanecem quietos por causa da cultura católica da colonização de nosso país qual faz uma distinção radical do sagrado e profano a nível de cosmovisão, qual sua fé não se envolve na esfera da realidade.


Mas qual a opção de uma teoria de educação alicerçada e fundamentada em princípios revelados na palavra de Deus? Pode-se articular um pensar pedagógico baseado na Bíblia? Peçamos ajuda a Comenius.


João Amós Comenius nasceu em 28 de Março de 1592, na região da Moravia, Boêmia, atual republica Tcheca. Perdeu os pais cedo e foi estudar teologia na faculdade calvinista de Herbon aonde se familiarizou com estudos de línguas. Aos 26 anos regressa a Moravia e assume uma igreja , porém sai de lá por causa de uma guerra político-religiosa com os católicos, qual Comenius se engaja a ajudar irmãos na fé. Expulso da Boemia em 1628 se refugia na Polônia e percorre toda a Europa não católica militando por 42 anos articulando seus projetos científicos e educacionais para divulgar seu sonho reformista. Em 1641 vai para Londres estabelecer uma diálogo entre o rei e o parlamento e fica 1 ano por lá, em 42 recebe um convite de Luís de Geer e do governo de Estocolmo para promover uma reforma do sistema escolar da Suécia, mas seu sistema educacional-religioso não foi bem aceito pelos luteranos suecos. Em 1648 se estabelece na Prússia oriental e articulou seus escritos e pensamentos filosóficos, sociais e religiosos. Com uma vida bem atarefada veio a falecer em Amisterdam em 1670, no dia 15 de novembro.





Sua maior contribuição foi a Didática Magna, qual faz com que receba o título de pai da didática moderna. Resolvendo um problema epistemológico do seu tempo, o método, ele articula a pansophia como método que é “ensinar tudo a todos” com o objetivo central de formar o bom cristão na sabedoria, temor e fé em Deus e na piedade com práticas virtuosas se estendendo aos ricos, pobres, deficientes e mulheres.




Comenius bebeu nas fontes renascentistas, usando principalmente Sêneca (aquele que Calvino fez comentário, escrevendo seu 1º livro) e Aristóteles (principalmente a lógica e a dialética) e a partir da Bíblia escreve seus métodos de educação na Didática Magna sob o contexto do renascimento e reforma protestante.



A máxima do ideal pansófico firmasse no desejo de ensinar tudo e todos e essa necessidade se sustentava na crença de que Deus, em sua infinita bondade colocava a redenção ao alcance dos seres humanos, portanto convinha educa-los corretamente , porque negar educação ao homem é ofender ao próprio Deus e essa educação é interdisciplinar observando a estética escolar e a arte, buscando o desenvolvimento do individuo que quanto mais conhece a si mesmo conhece as coisas de Deus (agostinho) explorando o conhecimento da natureza investigando o universo, sendo a didática processo e tratado, o ato de ensinar e a arte de ensinar sendo transmitidos na instrução, moral e religião. Vemos então que Comenius visava relacionar sua fé cristã reformada com a realidade e os estudos da educação.


Advogava a importância da educação formal de crianças pequenas e preconizou a criação das escolas maternais por toda a parte, para que as crianças desde cedo tivesses noções das ciências que estudariam mais tarde (astronomia, geografia, artes, física, história, aritimética, lógica, retórica, dialética). Comenius defendia também a idéia aristotélica que o conhecimento se dava pelos sentidos (ao contrário de Francis Bacon, novum organum , qual Comenius teve contato). Interessante frisar que o filósofo frânces René Decartes teve contato com os escritos de Comenius.


Comenius correlacionava a educação escolar com a importância da educação familiar visando uma pedagogização desde a infância para a formação da pessoa por meio de agrupamento de alunos aos pés do adulto dotado de saber, visando uma formação integral do ser. Comenius também falava da importância do ensino catequético.


Citações interessantes da didática magna:

“Tudo aquilo em que instruir-nos a juventude cristã depois das Sagradas Escrituras (ciências, artes, línguas, etc.....), devemos ensina-lo, subordinando as Sagradas Escrituras , para que se possa advertir e ver claramente que tudo é vaidade se não se encaminha para Deus”

“A fé , a caridade e a esperança serão facilmente ensinadas a prática se acostumarmos as crianças (e a todos) a crer com firmeza o que Deus nos revela , a executar o que nos manda e a espera o que nos promete.”

“ A verdadeira filosofia não é outra coisa senão o conhecimento de Deus e de suas obras, que não se pode aprender com maior pureza do que na boca do próprio Deus”



Solano Portela, do blog Tempora-Mores, escreveu um livrinho pela Ed. Fiel, Educação Cristã? Qual defende uma educação a partir da Bíblia como pano de fundo para todos os pensamentos exatos, humanos e científicos e nesses esforços é necessário resgatar para a igreja e sociedade pensamentos pedagógicos alicerçados nos fundamentos da fé cristã e enxergarmos nossa cultura da colonização católica de distinguirmos o sagrado do profano, exercendo uma fé mas não interagindo essa fé com a realidade e sociedade dominadas por pensamentos e cosmovisões fundamentadas em pressupostos pagãos.

Na academia pedagógica aonde predomina o construtivismo de Jean Piaget (ver a excelente analise em
www.solanoportela.net ) e a teoria do sujeito dialógico em Paulo Freire aonde visa autonomia que o homem não tem, Comenius e a Didática magna precisam ser resgatados para apresentar, junto com a Paidéia Grega e a trivial (retórica, lógica e gramática) , sistemas pedagógicos alicerçados em fundamentos coerentes com a Palavra de Deus para um efeito libertador na educação a partir da teologia cristã. Não que Comenius seja a palavra final e última para a metodologia em educação, pois foi um homem que viveu a luz de seu contexto mas que nele vejamos apenas um referencial que correlaciona o método com a fé cristã a partir de uma cosmovisão.

Que Deus abençoe os esforços para uma reforma geral, visando a glória Dele.

Agradeço ao irmão Solano Portela pelas dicas quanto ao conteúdo.

Post dedicado a amada irmã e amiga Silvianete Sanchez (junto a seu esposo Sidnei e sua filha Ana Carolina), educadora e firme na fé reformada, pelas orações, incentivos e investimento quanto ao nosso ministério.